31/08/2013
¡Bien venidos, amigos!
31 de agosto de 2013
David Oliveira de Souza
TENDÊNCIAS/DEBATES
Carta aos médicos cubanos
Bem-vindos, médicos cubanos. Vocês serão muito importantes para o Brasil. A falta de médicos em áreas remotas e periféricas tem deixado nossa população em situação difícil. Não se preocupem com a hostilidade de parte de nossos colegas. Ela será amplamente compensada pela acolhida calorosa nas comunidades das quais vocês vieram cuidar.
A sua chegada responde a um imperativo humanitário que não pode esperar. Em Sergipe, por exemplo, o menor Estado do Brasil, é fácil se deslocar da capital para o interior. Ainda assim, há centenas de postos de trabalho ociosos, mesmo em unidades de saúde equipadas e em boas condições.
Caros colegas de Cuba, é correto que nós médicos brasileiros lutemos por carreira de Estado, melhor estrutura de trabalho e mais financiamento para a saúde. É compreensível que muitos optemos por viver em grandes centros urbanos, e não em áreas rurais sem os mesmos atrativos. É aceitável que parte de nós não deseje transitar nas periferias inseguras e sem saneamento. O que não é justo é tentar impedir que vocês e outros colegas brasileiros que podem e desejam cuidar dessas pessoas façam isso. Essa postura nos diminui como corporação, causa vergonha e enfraquece nossas bandeiras junto à sociedade.
Talvez vocês já saibam que a principal causa de morte no Brasil são as doenças do aparelho circulatório. Temos um alto índice de internações hospitalares sensíveis à atenção primária, ou seja, que poderiam ter sido evitadas por um atendimento simples caso houvesse médico no posto de saúde.
Será bom vê-los diagnosticar apenas com estetoscópio, aparelho de pressão e exames básicos pais e mães de família hipertensos ou diabéticos e evitar, assim, que deixem seus filhos precocemente por derrame ou por infarto.
Será bom vê-los prevenindo a sífilis congênita, causa de graves sequelas em tantos bebês brasileiros somente porque suas mães não tiveram acesso a um médico que as tratasse com a secular penicilina.
Será bom ver o alívio que mães ribeirinhas ou das favelas sentirão ao vê-los prescrever antibiótico a seus filhos após diagnosticar uma pneumonia. O mesmo vale para gastroenterites, crises de asma e tantos diagnósticos para os quais bastam o médico e seu estetoscópio.
Não se pode negar que vocês também enfrentarão problemas. A chamada “atenção especializada de média complexidade” é um grande gargalo na saúde pública brasileira. A depender do local onde estejam, a dificuldade de se conseguir exame de imagem, cirurgias eletivas e consultas com especialista para casos mais complicados será imensa. Que isso não seja razão para desânimo. A presença de vocês criará demandas antes inexistentes e os governos serão mais pressionados pelas populações.
Para os que ainda não falam o português com perfeição, um consolo. Um médico paulistano ou carioca em certos locais do Nordeste também terá problemas. Vai precisar aprender que quando alguém diz que está com a testa “xuxando” tem, na verdade, uma dor de cabeça que pulsa. Ou ainda que um peito “afulviando” nada mais é do que asia. O útero é chamado de “dona do corpo”. A dor em pontada é uma dor “abiudando” (derivado de abelha).
Já atuei como médico estrangeiro em diversos países e vi muitas vezes a expressão de alívio no rosto de pessoas para as quais eu não sabia dizer sequer bom dia –situação muito diferente da de vocês, já que nossos idiomas são similares.
O mais recente argumento contra sua vinda ao nosso país é o fato de que estariam sendo explorados. Falou-se até em trabalho escravo. A Organização Pan-americana de Saúde (Opas) com um século de experiência, seria cúmplice, já que assinou termo de cooperação com o governo brasileiro.
Seus rostos sorridentes nos aeroportos negam com veemência essas hipóteses. Em nome de nosso povo e de boa parte de nossos médicos, só me resta dizer com convicção: Um abraço fraterno e muchas gracias.
DAVID OLIVEIRA DE SOUZA, 38, é médico e professor do Instituto de Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês. Foi diretor médico do Médicos Sem Fronteiras no Brasil (2007-2010)
—–
- Posted using BlogPress from my iPhone
01/11/2010
25/10/2010
22/08/2010
Sim, nós fizemos a revolução!
Mais de dois dias já se passaram sem que eu conseguisse escrever uma linha sequer para externar - mesmo que fosse só um pouquinho - minha enorme emoção após o evento de inauguração do campus UFSCar em Sorocaba. Acho que ainda estou sob o "efeito Lula".
Eu queria mesmo ter capacidade de escrever um texto bom, para expressar com clareza tudo - ou ao menos parte - daquilo que vi e vivi naquela manhã de 20 de agosto em Sorocaba. São tantos aspectos que poderiam ser abordados... E no fim eu nem sei por onde começar...
Estou vivendo um momento histórico. Tenho plena consciência disso.
Um dia os jovens brasileiros estudarão nas aulas de história do colégio a importância que teve o presidente Lula. A história do Brasil será dividida em duas eras: "antes de Lula" e "depois de Lula".
Assistir ao vivo o presidente ser ovacionado pela plateia - em sua grande maioria estudantes universitários - foi uma sensação indescritível.
Dizem que nos momentos de grande emoção - como à beira da morte, por exemplo -, passa pela nossa cabeça um filme de situações vividas no decorrer de nossa existência e que nos levaram até aquele momento. Afirmo a vocês, sem medo de estar exagerando, que naquelas poucas horas do evento passou um filme na minha cabeça, me lembrando de vários momentos de minha história e da história do nosso companheiro Lula.
Lembrei da campanha de 2002. Da festa da vitória na praça. Da alegria dos militantes que simplesmente não acreditavam que tamanha felicidade - a de eleger o nosso presidente operário - pudesse mesmo ser real, depois de tanta espera.
Lembrei do João Paes (o Joãozinho), descendo de bicicleta a Rua Dona Alexandrina em alta velocidade, com os braços abertos, depois da nossa festa na praça Cel. Salles. Ele queria mesmo era voar. Gritar para o mundo todo ouvir sua felicidade. A imagem mais marcante da felicidade e da realização.
Lembrei da felicidade interior que cada um de nós, militantes petistas, sentimos em cada uma das vezes que nosso presidente era reconhecido internacionalmente por estar mudando o Brasil. Por estar mudando de uma vez por todas a maneira como o restante do mundo enxerga o Brasil. Orgulho.
Lula, em seu discurso do dia 20, disse que parece ironia do destino que justamente o presidente tão julgado por não possuir diploma em curso superior tenha sido o responsável pela maior expansão do ensino público superior no Brasil. Lembrou das dificuldades que enfrentou para implementar as suas ideias que fizeram o milagre acontecer (como o ProUni e o ReUni, por exemplo) e até mesmo das dificuldades que enfrentou para ser eleito pela primeira vez.
Contou do desafio que foi fazer com que as pessoas mais pobres acreditassem que alguém igual a elas (no caso, ele) seria capaz de fazer um governo que começasse a distribuir melhor a imensa riqueza que nosso país produz. A dificuldade em convencer as pessoas para que acreditassem nelas mesmas. E, se elas acreditassem em si, poderiam acreditar nele também. Convenceu. E hoje nós todos colhemos os frutos de sua luta apaixonada por esse ideal maravilhoso.
É só o começo do iceberg. Ainda temos muito por mudar, por avançar.
Lula nos disse, olhando em nossos olhos durante seu discurso, que só precisamos acreditar em nós mesmos para fazer as mudanças que queremos acontecerem. Todos os dias!
Aqueles jovens ouviram seu presidente. Aplaudiram-no. Aclamaram-no. Riram com suas piadas e com seu jeito carinhoso de discursar.
Naquela cerimônia não se ouviram vaias, nem protestos. Fiquei imaginando que aquele ato mais parecia um comício - onde todos que assistem são cabos eleitorais e apoiadores e que, portanto, só aplaudem! - não, definitivamente aquilo não parecia uma cerimônia oficial, onde sempre há quem queira legitimamente reivindicar algo de seu presidente, aproveitar a proximidade da autoridade para gritar suas insatisfações, se fazer ouvir.
Aquelas pessoas que ali estavam fizeram um silêncio absoluto para ouvir seu presidente. Esse silêncio só era interrompido por aplausos e gritos de incentivo. Um povo agradecendo seu presidente, se emocionando com ele, se despedindo dele a pouco mais de 4 meses de terminar seu mandato.
Chorei. Muita gente chorou. Choro agora novamente, somente pela emoção de escrever este texto confuso. Choro pelo turbilhão de emoções que esse episódio me proporcionou, e que estão aqui dentro de mim pra sempre.
Pensei, naqueles momentos, no que deve significar para ele, o presidente Lula, essa satisfação de ser aclamado pelo seu povo. De encerrar seu mandato com aprovação popular recorde, de ter a certeza de que cumpriu sua missão. E de saber que seu povo sentirá saudades dele...
Quando abracei o presidente Lula, em sua chegada para o evento, senti que abraçava o meu companheiro Lula. Aquele que ajudei a eleger, que ajudei a sustentar no governo durante todos esses anos e que por tantas vezes a elite golpista tentou derrubar. Não consegui pensar em mais nada para dizer a ele naquele breve momento em que o tive diante de mim, olhando diretamente para mim e retribuindo meu sorriso. Nada poderia expressar a imensa HONRA que tenho em meu coração e em minha ALMA. A gratidão que tenho a Deus, nosso Pai, por poder ter vivido esse momento histórico.
Só consegui dizer ao presidente: "Bom dia" e, logo depois, um tímido, mas muito verdadeiro "muito obrigada". E pensei comigo: "obrigada por tudo!"
Quando tudo acabou, as autoridades se dispersaram e o presidente se foi, olhei para um colega que estava ao meu lado, com olhos marejados como os meus, e disse o que se passava naquele momento pela minha cabeça: "É. Nós fizemos a revolução".
24/02/2010
As Ilhas Malvinas e a América Latina
Colonialismo e soberania
Gilson Caroni Filho, Jornal do Brasil - 18.02.2010
RIO - A política internacional costuma ser uma estranha combinação de dramaticidade e de tédio, deslocando-se de uma excitante promessa de mudança para uma triste perspectiva de monotonia. De forma recorrente, trafega-se de conhecidas petições sobre "sinceros desejos de uma nova ordem mundial sustentável" para reiterações de hegemonismos e Destinos Manifestos. Enquanto analistas buscam fornecer conceitos atualizados de Estado e soberania, a realidade continua sendo moldada pelo antigo conceito de imperialismo: aquele que era definido como expressão de uma fase monopolista do capital.
A decisão do governo britânico de explorar petróleo e gás nas Ilhas Malvinas, reavivando tensões entre a Argentina e o Reino Unido, 28 anos depois da guerra travada entre os dois países por esse arquipélago do Atlântico Sul, reafirma o léxico colonialista que faz tábua rasa das resoluções da ONU. A conhecida virulência do antigo império, sempre amparado no apoio dos Estados Unidos, não afronta apenas o povo argentino. Para além das fortes evidências de uma rica província de hidrocarbonetos na região, o que está em xeque é a soberania da América Latina. Elaborar estratégia para a defesa de suas riquezas energéticas, como o pré-sal brasileiro, é imperativo e inadiável.
Como denunciou a presidente Cristina Kirchner, "não é aceitável que as regras do mundo não sejam iguais para todos. As Nações Unidas podem tomar medidas, inclusive de força, contra países que não cumprem certas normas, mas quando são os poderosos que não as cumprem, nada acontece. A permanência de um enclave colonial não tem sentido". Afirmar que tudo não passa de "um assunto de política interna tanto para Cristina quanto para Gordon Brown" é jogar cortina de fumaça sobre questões mais profundas. Trata-se de, agindo com má-fé, estabelecer paralelos equivocados entre o passado e o presente.
Se, em 1982, o desespero foi o conselheiro que inspirou a ditadura militar a um salto no vazio, isto é, a ocupação das Malvinas, o que hoje move o governo argentino é a preservação de um espaço político soberano. Não há um general Galtieri tentando abrir um caminho para escapar do beco sem saída, mas uma presidente eleita reivindicando legítimos direitos nacionais. Um país renascido diante da recuperação de suas liberdades e consciente da importância da autodeterminação.
Não há solução de meio-termo quando a ofensiva imperialista não esconde mais seus objetivos. O golpe em Honduras, a ofensiva dos grandes proprietários na Argentina, a ação desestabilizadora da direita paraguaia, e as bases militares na Colômbia e no Panamá são fatos por demais suficientes para afastar a perigosa inércia analítica. Aquela que ignora, entre outras coisas, a crescente militarização das relações dos Estados Unidos com a América Latina.
As Ilhas Malvinas e suas adjacências são argentinas. Devem ser descolonizadas e reintegradas ao país. Têm que ser liberadas da ocupação estrangeira que se propõe a explorar suas riquezas e, provavelmente, instalar bases militares apontando para toda a América Latina e seu projeto de integração regional.
A luta deve prosseguir no plano político, diplomático, e em todos os terrenos apropriados, até a definitiva recuperação do arquipélago. È preciso afrontar todas as responsabilidades exigidas para o cumprimento de um programa de ação democrática e antiimperialista.
07/11/2009
Lula lá
ANNE WARTH E CAROLINA FREITAS - Agencia Estado
SÃO PAULO - O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, atribuiu as críticas que recebeu do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) na última semana ao "ódio" do tucano em relação a seu governo. "Eu compreendo o ódio que isso causa. Um intelectual ficar assistindo um operário que só tem o 4º ano primário ganhar tudo o que ele imaginava que iria ganhar e não ganhou por incompetência é muito difícil", disse ele, interrompido por palmas e um coro de "Olê Olê Olê Olá Lula" de mais de 800 pessoas que assistiam à abertura do 12º Congresso do PCdoB, no Palácio das Convenções do Anhembi, na zona norte da capital paulista.
O petista revidou também o ataque do compositor Caetano Veloso, que chamou Lula de "analfabeto" em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. "Essa semana foi engraçada. Eu fui chamado de analfabeto, de ditador, por ter indicado a Dilma (Rousseff, ministra da Casa Civil) pelo ''dedaço'' e ganhei o título de estadista do ano", discursou Lula, em referência ao prêmio Chatham House 2009, que recebeu em Londres por seu empenho nas relações internacionais na América Latina.
O presidente ironizou o fato de não ter a "sapiência dos sociólogos", em uma referência à formação de Fernando Henrique, e dissociou a inteligência do saber acadêmico. "Tem gente que acha que a inteligência está ligada à quantidade de anos de escolaridade que você teve. Não tem nada mais burro que isso. A universidade te dá conhecimento. Inteligência é outra coisa."
Para o petista, na política, vale mais a inteligência do que o conhecimento. "Muito mais", enfatizou. "A inteligência de saber formar uma equipe não está no livro. Está na sensibilidade. A inteligência de tomar decisões não está no livro. Está no caráter e no compromisso do dirigente."
Lula comparou Fernando Henrique a um jogador de futebol que fica no banco de reservas torcendo para que um titular se machuque para poder entrar em campo. "Fernando Henrique tinha certeza de que nós seríamos um fracasso e de que ele poderia voltar por conta do meu fracasso", disse. "É isso que magoa. Eu lamento. O mundo não deveria ser assim."
Apesar de mostrar-se incomodado com as críticas do ex-presidente tucano, Lula tentou contemporizar: "A vida é assim. A pessoa fala o que quer, ouve o que não quer. A vida é dura." Ele disse ainda não guardar rancor em relação aos ataques. "Não sou homem de carregar mágoas por mais de cinco minutos. O mandato não permite que a gente fique brigando por coisas secundárias."
Hitler
O presidente afirmou sentir "pena" dos tucanos por eles planejarem um programa de treinamento de cabos eleitorais no Nordeste do Brasil com vistas às eleições de 2010. "É um pouco o que o Hitler fazia, para que os alemães pegassem os judeus. Ou seja, vamos treinar gente para não permitir que eles sobrevivam", disse ele, em referência ao ditador nazista alemão, Adolf Hitler.
Para Lula, a estratégia do PSDB no Nordeste não vai funcionar. "Eles vão encontrar lá gente do PCdoB, PT, PDT, PSB, CUT (Central Única dos Trabalhadores) e todas as centrais, MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e movimento popular. Acho que vão se dar um pouco mal."
Eleições
Último a falar, após duas horas de discursos de parlamentares e ministros, Lula deu sequencia ao clima de palanque petista do evento. Possível candidata do PT à Presidência em 2010, Dilma foi saudada pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), como "futura presidenta do Brasil".
Em tom de conclamação, Lula alertou para o risco de retrocessos caso seja eleito no próximo ano um presidente que não Dilma. "Quem é prefeito ou governador sabe bem que um estranho no ninho pode desmontar em apenas dois anos tudo o que foi feito. E não venham dizer que o movimento popular não deixa por que é bobagem."
O pleito de 2010 será o primeiro em décadas do qual Lula não participará como candidato. "Tenho uma certa tristeza. Essa vai ser a primeira eleição para presidente da República em que meu nome não vai estar na cédula. Na minha cabeça vai ter um vazio", brincou. "Por isso, depois dele (Lula), (vem) a Dilma, para poder consagrar a continuidade de um projeto."
05/11/2009
um asno pastando à solta na sociedade brasileira
Dessa vez o motivo da insônia foi uma matéria que li no estadão e que me irritou profundamente. A entrevista do Caetano Veloso. Entre outras "pérolas", a que mais me irritou e me indignou profundamente foi o desrespeito ao presidente da república. Transcrevo aqui o trecho inteiro:
"Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro".
Veja bem meu caro artista auto-intitulado intelectual, que eu saiba o presidente não é analfabeto. Que eu saiba ele fala muito bem - é respeitado mundo afora pela articulação e pela desenvoltura com que transita em todos os ambientes (pela primeira vez na história desse país, como ele mesmo gosta de dizer, já que os presidentes anteriores não só não eram ouvidos - como o Lula é - como nem sequer eram recebidos por ninguém: vide aquele caso em que o FHC ficou que nem idiota esperando na antesala do FMI e mandaram um mensageiro despachá-lo sem ser atendido).
"Analfabeto", o Lula? "Não sabe falar"? Pergunte a todos que estudam, trabalham, lecionam em universidades federais o que o Lula, o analfabeto, fez pelo ensino público superior no Brasil. A maior expansão da história. Sim, logo ele, o Lula analfabeto, investindo nas universidades federais que o catedrático antecessor passou 8 anos sucateando e tratando como lixo (cuspindo no prato que comeu! formou-se e trabalhou em universidades públicas e depois quis acabar com elas).
"Grosseiro", o Lula? Que eu saiba ele nunca foi grosseiro com qualquer pessoa a quem se dirigiu - mesmo quando julgássemos que ele teria razões para sê-lo, debaixo de saraivadas de críticas desconstrutivas, desrespeitosas e preconceituosas como a sua: críticas vindas de gente que tem ódio de Lula só porque ele é um operário que chegou ao poder e fez o melhor governo que esse país já teve. "Grosseiro" é você, que vai ao jornal desrespeitar o presidente da república. Ora, vá plantar batatas!
E o pior é o Estadão falar que "uma sabedoria subiu à cabeça do artista" (!!!)
Sabe o que parece? Que o Caetano nunca conseguiu engolir a enorme dor de cotovelo que ele tem até hoje pelo fato de ter sido o Gilberto Gil a ser escolhido pelo Lula como o Ministro da Cultura. Acho sinceramente que o Caetano deveria ter morrido lá pelos anos 70 (talvez 80, pouco antes de compor a música "Luz de Tieta") assim teríamos um ícone, um artista de quem gostaríamos e nos orgulharíamos até hoje. Seria ótimo ter o nome dele em Bibliotecas, Teatros, pracinhas da periferia. Imagina um busto de bronze, em tamanho natural, com a letra de "Podres Poderes" numa plaquinha? Seria bárbaro. Um orgulho nacional. É tipo o Maradona, sabe? Que deveria ter parado a carreira no auge, assim como fez Pelé, e seria respeitado até hoje ao invés de andar por aí fazendo as merdas que faz.
E pra falar nos verdadeiros grandes artistas - que realmente engrandecem a imagem do Brasil e cumprem seu papel e por isso mereceriam ter mais espaço na mídia do que esses babacas falastrões - termino oferecendo ao Caetano uma música do Chico Buarque, que ele jura que não fez pro FHC (mas eu juro que não acredito) e que serviria certinho pro Lula responder ao Caetano, na maior elegância - como é seu estilo:
(Observe, Caetano, que a música é de 1998. Nessa época você já tinha perdido completamente sua capacidade de compositor, já tinha começado a regravar músicas do Peninha, enquanto o Chico... Ah, o Chico! É como o vinho! Está cada vez melhor - acho até que a Rita Lee se equivocou ao escolher o "Muso" pra música "Homem Vinho". Acho que ao ver as merdas todas que você faz e fala ela deve se arrepender de não ter feito a música pro Chico)
Injuriado
Chico Buarque/1998
Se eu só lhe fizesse o bem
Talvez fosse um vício a mais
Você me teria desprezo por fim
Porém não fui tão imprudente
E agora não há francamente
Motivo pra você me injuriar assim
Dinheiro não lhe emprestei
Favores nunca lhe fiz
Não alimentei o seu gênio ruim
Você nada está me devendo
Por isso, meu bem, não entendo
Porque anda agora falando de mim
05/10/2009
nunca na história deste país...
O Brasil vai adquirir US$ 10 bilhões em bônus do Fundo Monetário Internacional (FMI). O anúncio foi feito formalmente pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, nesta segunda-feira (5) em Istambul, na Turquia. Após a revisão, o acordo será encaminhado à Diretoria Executiva do fundo para aprovação. Pela primeira vez, na história, o Brasil passa à condição de credor do FMI, em vez de devedor.
Na Turquia, Guido Mantega participa da reunião do FMI e do Banco Mundial (Bird), em meio às discussões sobre a maior participação dos países emergentes nas decisões dos dois organismos multilaterais. Além do ministro, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está presente ao encontro como representante do Brasil.
Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Fazenda, no encontro que teve com o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, o ministro oficializou a decisão de assinar um Acordo de Compra de Notas (ACN) com a instituição, faltando apenas o envio a instâncias técnicas do governo para a revisão final.
Convite - Em abril deste ano, o FMI convidou o Brasil a fazer parte dos países credores da organização multilateral e o governo brasileiro aceitou a proposta. Na ocasião, Mantega antecipou que durante reunião do G20, em Londres, naquele mês, ficou combinado que os países mais fortes, os que têm recursos disponíveis dariam aportes de forma que o fundo obtivesse mais US$ 500 bilhões para poder ajudar os países em dificuldade.
Dois meses depois do convite, o ministro anunciou que o Brasil disponibilizaria US$ 10 bilhões ao Fundo. A operação da aquisição de bônus do FMI é lastreada em Direito Especial de Saque (DES), uma espécie de moeda do Fundo, com juros pagos trimestralmente, baseados na taxa estabelecida pela instituição. Essa taxa de juro é a média ponderada das taxas de juros de curto prazo dos Estados Unidos, da Zona do Euro, do Japão e Reino Unido, e atualmente está em 0,25%.
O comunicado do Ministério informa que as notas serão emitidas de acordo com as necessidades de recursos do Fundo e que terão prazos de repagamento iguais aos que vigoram nos empréstimos do FMI (três anos e um trimestre de carência e cinco anos de prazo total.
Empréstimo - A nota oficializando o empréstimo do Brasil ao fundo divulgada em Brasília ressalta que em meio à maior crise econômica desde a Grande Depressão dos anos 1930, além de não precisar de apoio financeiro do FMI, o Brasil está em condições de emprestar um montante expressivo de recursos à instituição.
O documento registra ainda que o ACN é parte da decisão de ampliar a capacidade de empréstimo do FMI, conforme acordado pelos líderes do G20. Com esse objetivo, diversos países (Japão, Canadá, Noruega, França, Reino Unido, Alemanha, Suíça, Espanha e Países Baixos) já concluíram acordos bilaterais de empréstimo, aprovados pela Diretoria do fundo. No caso do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), a opção foi pela modalidade de compra de notas. O acordo com o Brasil terá duração de dois anos.
(fonte: portal do governo brasileiro)
02/10/2009
vitória do nosso continente!
A Olimpíada é nossa
O Rio de Janeiro foi escolhido para sediar as Olimpíadas de 2016. A vitória brasileira é a vitória de todo o continente. Pela primeira vez na história dos jogos olímpicos, o Comitê Olímpico Internacional (COI) escolheu uma cidade da América do Sul para abrigar o maior evento esportivo do mundo.
O anúncio foi feito na última sexta-feira pelo presidente do COI, Jacques Rogge, em Copenhague, na Dinamarca. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministros de estado, além do governador e do prefeito do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, respectivamente, defenderam a candidatura brasileira. “Depois que a gente passa por muita coisa, pensa que não vai mais ficar emocionado. Mas hoje foi um dia sagrado para mim. Se eu morresse agora, já teria valido a pena viver”, afirmou o presidente, que se empenhou pessoalmente para que o país alcançasse o êxito.
Na reta final da disputa, o Rio concorreu com Madri (Espanha). Chicago (Estados Unidos) e Tóquio (Japão) foram as primeiras cidades eliminadas. “Estamos entre as demais maiores economias do mundo”, afirmou o presidente.
A escolha do Rio é também o reconhecimento do inquestionável momento do país, em que prevalece a estabilidade democrática, política e econômica.
Desenvolvimento - A realização dos Jogos representa um legado de desenvolvimento para a cidade e para o Brasil, com a transformação social, esportiva e econômica no Rio e a consequente geração de impactos positivos em todo o país.
As obras de infraestrutura essenciais ao sucesso do evento já constam de planos de ação para o Rio e o Brasil. Estudos indicam que os jogos vão impactar R$ 90 bilhões na economia brasileira. Os investimentos podem criar, a partir deste ano até 2016, mais de 120 mil empregos diretos e indiretos ao ano e cerca de 130 mil, entre 2017 e 2027, ao ano. E 97% da aplicação dos recursos para os jogos vão retornar aos cofres públicos por meio da arrecadação de impostos.
(Fonte: Portal do Governo Brasileiro)
30/09/2009
Honduras e mídia golpista Ops! Quero dizer... mídia brasileira
O golpe em Honduras e como nossa mídia enrola o povo
É impressionante ver como a mídia hegemônica nacional distorce os fatos sobre a realidade hondurenha. É uma verdadeira inversão de valores. Um golpista, como Micheletti, ganha grandes manchetes nos principais meios de comunicação de massa. Já o encaminhamento dado ao problema por Lula (e elogiado por Obama, OEA e ONU) não só não merece o mesmo destaque, como é ironizado por essa mesma mídia.
A mudança de posição dos EUA na reunião da OEA nesta 2ª. feira pode significar que os norte-americanos realmente estiveram por trás da expulsão de Zelaya do país. Afinal, é duro para o Tio Sam ter de suportar mais um governo de esquerda na América Latina.
Mais impressionante ainda é constatar a má-fé da mídia brasileira: faz de conta que desconhece que Zelaya, ao tentar realizar uma consulta popular sobre um novo mandato presidencial, não descumpriu a Constituição hondurenha. A mídia, contudo, não se cansa de afirmar o contrário, secundada pela oposição de direita no Congresso Nacional: PSDB e DEM.
Mauro Santayanna – jornalista que por sua dignidade, honra e prestígio dispensa comentários – fez importante análise dos acontecimentos em Honduras em artigo publicado pelo Jornal do Brasil semana passada. Como ele afirma, “Qualquer que venha a ser o desfecho da crise, o Brasil não pode desculpar o insulto à sua soberania”. Disse ainda que a intenção de Zelaya não era, absolutamente, “disputar um segundo mandato” no referendum popular convocado para junho passado.
Como diz Santayanna, Zelaya queria (e sem efeito vinculante) que o povo dissesse se concordava, ou não, que nas eleições de novembro próximo uma quarta urna fosse colocada nas seções eleitorais. Nessa urna especial, os eleitores aceitariam, ou não, a convocação de Assembleia Nacional Constituinte para redigir nova Carta Política”.
E acrescenta: “A consulta direta ao povo, por iniciativa do presidente da República, é prevista pela atual Constituição de Honduras, em seu artigo 5º. Embora provavelmente nova Assembleia Constituinte pudesse tratar também do problema dos mandatos, a consulta de novembro não faria referência expressa a isso, nem Zelaya seria beneficiado: ela coincidiria com a eleição de seu sucessor, dentro das regras atuais do jogo”. Mais claro impossível!
Em síntese, quem está descumprindo a Constituição hondurenha, óbvio, são os golpistas. A grande questão é que Zelaya e seu grupo migraram de uma posição ideologicamente conservadora para outra de centro-esquerda e de defesa dos interesses nacionais. Por isso, passou a sofrer oposição da oligarquia hondurenha – que o tinha elegido e que se considerava traída. Daí o golpe de Estado. Em seu artigo 3º, como chama a atenção Santayanna, a Constituição do país explicita a condenação a este tipo de golpe. Senão, vejamos.
“Ninguém deve obediência a um governo usurpador nem a quem assumam funções ou empregos públicos pela força das armas ou usando meios e procedimentos que contrariem ou desconheçam o que a Constituição e as leis estabelecem. Os atos verificados por tais autoridades são nulos. O povo tem direito a recorrer à insurreição em defesa da ordem constitucional”.
Quem violou a Constituição, portanto, foi o Sr. Micheletti e as forças civis e militares que o acompanharam. A mídia hegemônica e golpista brasileira, escondendo isso, confunde a opinião pública brasileira. Por quê? Simples: para desgastar o presidente Lula. Afinal, 2010 está aí!
Emerson Leal – Doutor em Física Atômica e Molecular e vice-prefeito de São Carlos.
E-mail: emersonpleal@gmail.com
SET/2009.
25/09/2009
Zelaya e a aposta ousada de Lula
Zelaya e a aposta ousada de Lula
A chegada de surpresa do presidente Manuel Zelaya a Tegucigalpa foi a resposta aos que se perguntavam o que mais se poderia fazer para pôr fim à suspensão forçada do Estado de Direito em Honduras depois que o usurpador Roberto Micheletti e os que o apoiam se mantiveram irredutíveis ante o emprego de todas as formas imagináveis de ação diplomática para fazê-los desistir.
A chegada repentina do líder constitucional à capital de seu país veio colocar em ridículo as forças militares e de segurança, incapazes de impedir o trânsito do homem mais procurado pelo regime. Fica assim marcado um dos últimos, ainda que indispensáveis, atributos de poder do governo de facto, qual seja a capacidade de demonstrar um controle efetivo do território.
Quando o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, José Miguel Insulza, disse sensatamente que não se podia "voltar à diplomacia das canhoneiras", poucos imaginavam que houvesse outra iniciativa à mão para derrubar por meios pacíficos a palhaçada golpista. Com certeza, se há uma definição de "pária", ela tem em Micheletti o exemplo máximo: nem Saddam Hussein, nem Coreia do Norte, nem talvez o regime genocida sudanês sofreram um bloqueio tão absoluto do acesso à ajuda das relações exteriores, do reconhecimento diplomático mesmo, como o que enfrentam os golpistas hondurenhos. E, no entanto, eles se obstinaram, há muitas semanas já, esperando que eleições realizadas em condições inconstitucionais lhes restituam a imunidade. Pois bem, Zelaya saudando da varanda da embaixada brasileira foi o safanão mais violento que receberam num momento em que a unanimidade internacional no repúdio corria o risco do desânimo que a falta de resultados sempre causa.
Os Estados Unidos haviam aumentado, há alguns dias apenas, a aposta antigolpista que vem fazendo (com hesitações nas quais se leem disputas burocráticas internas e a inércia da Guerra Fria) o presidente Barack Obama, ao suspender vistos dos procuradores do regime. Mas nada se compara à audácia que demonstrou um Brasil que, embora totalmente comprometido desde o início na condenação ao golpe, parecia estar esperando com impaciência que os próprios Estados Unidos agissem decisivamente dentro do que Brasília indicava respeitar como área de influência exclusiva da superpotência.
Pois bem (e esta é uma partida bem interessante que parece estar sendo jogada agora), a diplomacia do Itamaraty deixou ver ante os olhos arregalados do mundo que seu país está disposto a dar mostras de maioridade geopolítica em qualquer rincão da América Latina e do Caribe onde uma demonstração de poder possa provocar efeitos, em princípio, benévolos. Uma chave de leitura do que sucede nestas horas dramáticas e intensas em Tegucigalpa pode-se comparar à hospedagem oferecida a Zelaya à presença sul-americana na missão da ONU no Haiti.
A jogada brasileira, na qual já estão publicamente envolvidos o chanceler Celso Amorim e o próprio presidente Lula, e para a qual estão utilizando a caixa de ressonância da Assembléia Geral da ONU, em Nova York, deve ser vista à luz da inquietação provocada em Brasília pela remobilização da IV Frota dos Estados Unidos no Atlântico Sul e a presença desse país em bases militares colombianas. Convencidos de que esses movimentos se destinam a contrabalançar sua força como potência emergente, os brasileiros não deixarão passar a oportunidade de se projetar, reafirmando-a.
As condições para uma virada da situação em Tegucigalpa estão dadas. E, embora cooperem neste caso para o fim comum de devolver a democracia ao povo hondurenho, os termos da rivalidade hemisférica entre Washington e Brasília também estão.
* Co-coordenador do Programa de Política Internacional do Laboratório de Políticas Públicas (LPP)
Traducção ao português de http://www.operamundi.net/
22/09/2009
farinha do mesmo saco
12/09/2009
O Mais Honesto de Todos os Homens, o Presidente de Nascença José Serra, assinou documento de apoio e solidariedade à cleptogovernadora do RS, Yeda Crusius. Defendendo a corretíssima correligionária cleptotucana, ao lado do Grande Economista dos Trópicos estão as assinaturas de Sérgio Guerra (presidente do PSDB), o réu confesso de uso privado de recursos públicos senador Artur Virgílio Neto (PSDB-AM), os governadores tucanos de Alagoas, Teotonio Vilela Filho (PSDB), Minas (Aécio Neves) e Roraima (José de Anchieta Jr) e o deputado ex-petista José Aníbal (PSDB).
(Fonte: Tia Carmela e o Zezinho)
17/09/2009
coisas que acontecem
Já ouviram falar numa coisa chamada "mau uso do dinheiro público"? Abaixo, um exemplo típico.
Pode um órgão público, sem fazer um único atendimento, consumir R$ 240 mil num país como o Brasil?
Pois o Poupatempo de São Carlos já "torrou" este montante em aluguel de um prédio que está fechado e vai custar mais R$ 120 mil até ser finalmente inaugurado em plena campanha eleitoral, no segundo semestre do próximo ano.
O governador José Serra (PSDB) esteve
Mas, o projeto foi sendo seguidamente adiado e agora já está definido que ele somente começará a funcionar no segundo semestre de 2010.
Como uma espécie de "prêmio de consolação", a cidade receberá no próximo mês uma unidade móvel do Poupatempo.
25/08/2009
Mídia e Democracia
As contradições do Congresso Nacional
Os professores da PUC do Rio Grande do Sul – Pedrinho Guareschi e Osvaldo Biz –
lembram, em seu livro Mídia & Democracia, que “A mídia no Brasil não é o quarto poder. É o primeiro, o que controla e subjuga os demais (...). A mídia, principalmente a eletrônica, constrói a realidade, impõe os valores, monta a pauta de discussão nacional e subjetiva as pessoas”.
O fato de a mídia impressa ser algo que se rege pelos princípios de uma empresa privada, não a isenta de responsabilidade social. Já a mídia eletrônica – rádio e televisão – é um serviço público. Ou seja, é uma concessão temporária, “não pode ter ‘donos’ e tem como tarefa essencial ser educativa, formar para a cidadania, sendo uma nova ágora, onde devem ser discutidos os grandes problemas nacionais”.
Contudo, o que se observa no Brasil é que tanto a mídia impressa como a eletrônica fogem, como o diabo da cruz, de toda e qualquer discussão que tenha como pauta definir os parâmetros de um controle social sobre elas. Mais que isso, demonizam quem tiver a petulância de chamá-las à responsabilidade. Neste contexto, como avançar no aprofundamento de conceitos como a democracia e a cidadania? Difícil!
Para se ter uma idéia do papel nefasto da mídia hegemônica no País, é só analisarmos este triste episódio que escancarou os bastidores do Congresso Nacional. Mas, para entendê-lo há que o fazer com critérios políticos – não moralistas, como insiste aquela mídia justamente para moldar a opinião pública, esconder a realidade e construir a (‘realidade’) que lhe interessa, como diriam os autores de Mídia & Democracia.
Pois bem, todos sabemos que o nosso Parlamento sempre funcionou assim. É só lembrar
que, durante o governo FHC, seu grande aliado no Congresso Nacional não foi outro senão ACM – o popular Toninho Malvadeza. O corporativismo – ontem como hoje – sempre funcionou, objetivando manter privilégios. Mas, quando ‘reinava’ o Príncipe da Sorbonne que, comprovadamente comprou a sua reeleição, rasgando a Constituição, a mídia não demonstrou tanto zelo assim na defesa da ética e da moralidade, como faz hoje.
Por quê? Simples! Por que a questão em tela é política, e a mídia defende seus interesses. E seu interesse, hoje, é desalojar o PT do poder, é destruir a candidatura Dilma Roussef e trazer de volta os tucanos para continuar com a tarefa ‘hercúlea’ de desmontar o Estado brasileiro para ficar mais fácil entregá-lo aos interesses externos. Que o diga a CPI da Petrobrás, de responsabilidade de
tucanos e ‘democratas’: querem entregar o pré-sal para os EUA; e os factóides que, dia e noite, eles criam no Congresso Nacional com o único objetivo de desgastar o governo Lula. Mas a mídia jura que o que ela quer mesmo é ajudar a moralizar o Congresso Nacional.
O Estadão, por exemplo, que sempre foi o maior porta-voz das oligarquias no Brasil, ostenta manchetes que dizem que o arquivamento das denúncias contra Sarney custará caro ao Parlamento ‘que insiste em sustentar oligarquias em detrimento da opinião popular’. E esculhamba com o presidente Lula por ele se preocupar em “preservar o Sarney”. Ou seja, uma análise baseada puramente na lógica formal e em critérios moralistas justamente para construir a ‘realidade’que lhe interessa.
Se este jornalão quisesse realmente diagnosticar o problema, teria de mostrar para seus leitores como se trava a luta política dentro do Congresso Nacional; como funciona nossa democracia do poder econômico; quem e como é eleito um representante para o Parlamento; como se constrói a governabilidade (que é imposta por essa mesma democracia – frágil e incipiente).
Trocando em miúdos: a imprensa faz todo este escarcéu porque quer passar a presidência do Congresso para as mãos do tucano Marconi Perilo, que responde por inúmeros processos em Goiás por irregularidades em sua administração quando governador.
E a presidência do Congresso, passando para as mãos dos tucanos, o que vai acontecer
mesmo, como num passo de mágica, é que a mídia vai parar de falar em moralização do
Parlamento. É assim, a luta pelo poder. Que ninguém se iluda.
(Emerson Leal – Doutor em Física Atômica e Molecular e vice-prefeito de São Carlos)
21/08/2009
Carta sobre Marina Silva e o PT
Eu agradeci a indicação do poema, e respondi sua pergunta: "Pícaro, com Marina ou sem Marina, ficaremos onde sempre estivemos: no PT".
Marina Silva, militante histórica do PT e das questões ambientais, herdeira do petista Chico Mendes, Senadora pelo estado do Acre, ex-ministra do ambiente do governo Lula, parece que vai sair do seu atual partido para ser candidata a presidente da república pelo Partido Verde, em 2010.
Evidentemente, isso ocorre com frenesi em toda a mídia: uma militante emblemática do Partido dos Trabalhadores, reconhecida militante deserta e, como a onda é dar pau no Governo Lula, toda a mídia especula, dá espaço etc, etc.
Marina alega precisar de espaço para sonhar, quer mais utopia e outras coisas do gênero que acusa o PT de não mais contemplar.
Vai então para o Partido Verde.
Marina sempre foi para mim uma grande referência de militância e de dignidade, de luta. Mulher, negra, do povo da floresta, alfabetizada quando adolescente. Uma vez, com outro amigo, sonhei que ela seria a sucessora de Lula na presidência. Um perfil e tanto. Como eu sempre soube que na política nem sempre o melhor perfil o é de acordo com a hora e o momento político, esperei e guardei esta utopia no meu acervo de sonhos que esperam para amadurecer e para se tornarem realidades.
É verdade que o PT encara a dura e amarga dose de realidade, no governo de cidades, estados e a realidade do governo federal. O dia a dia do executivo joga duro com o espírito inquieto de qualquer militante (de esquerda, lógico). A tarefa impossível de conseguir um remédio para uma criança que agoniza no colo da mãe que não tem emprego nem moradia, os planos pluri anuais, restrições orçamentárias, ordens hierárquicas, as demandas do executivo. Coisa de todo o tipo aparecem e nossos melhores quadros vão para as estruturas do estado para fazer aquilo que há muito tempo planejamos e lutamos: governar o país. (Eduardo Galeano diz que o "poder devora heróis e caga loucos").
Nesta empreitada são feitas muitas concessões, é verdade. Do crescimento desordenado, mandatos parlamentares e executivos que mandam demais, secundarização do diálogo com os movimentos sociais, ausência de formação política para os militantes que chegam etc.
Mas o PT é um lugar para sonhar e, sobretudo, para concretizar sonhos coletivos.
Eu mesmo sonho todo dia. Inclusive, debatendo política com alguém na padaria, no ponto de ônibus etc. pedem para que eu pare de sonhar, que o PT não é tudo isso. E dizem isto desde sei lá quando. Sempre a mesma ladainha: você idealiza demais. E eu, como todo petista, acho que idealizo demais mesmo, na medida exata do sonhador que gosta tanto do seu sonho que quer que ele se torne realidade.
Por exemplo, quando alguém me pergunta "onde é que se compra uma camiseta destas que você usa", parece que eu estou sonhando; quando um parente distante me conhece e confessa que sente orgulho de ter um "petista de carteirinha", parece que eu sonho; quando um grupo de alunos fez a campanha do candidato do PT, parecia que eu sonhava; quando alguém defende o Bolsa Família, o Projovem, o Prouni, o Luz Para Todos, o PAC, parece que eu estou sonhando. Mas é tudo realidade, uma maravilhosa realidade com a qual sonhamos e pela qual lutamos, coletivamente.
Quando alguém defende que Lula precisa de um terceiro mandato para fazer mais coisas boas para nosso povo, eu sonho. Mas Lula, o democrático Lula, serenamente não se deslumbrou com mais quatro anos de presidência. Escolheu - Lula escolheu, é verdade - Dilma para sucedê-lo. O PT defende Dilma e milhões de brasileiros já entenderam que Dilma é a candidata de Lula.
Marina será candidata pelo Partido Verde. Para quê? Para sonhar? Mas é possível sonhar num partido de direita e tão inexpressivo? Valha-me. Talvez algum assessor a tenha convencido que sua candidatura seja suficiente para alavancar uma questão tão nobre quanto a questão ambiental. Sendo ela quem é nunca iria aderir a esta idéia. Chico Mendes, quando sua morte era dada como certa, escreveu: "Se alguém descesse do céu e me garantisse que a minha morte fortaleceria minha luta, eu ofereceria minha vida tranquilamente. Mas a experiência mostra o contrário". Marina nunca cairia neste rompante personalista (não?).
Muitos acreditavam que o PT era um partido tático, que servira apenas a um curto período histórico para acumulação de forças. Quem assim acreditava saiu do PT: PSTU, PSOL e ainda creio que existam alguns que assim pensam. E o PT os acolhe, com as regras democráticas, com as tendências, as eleições diretas, os encontros, os congressos onde cada filiado vota.
Marina poderia analisar os ônus de sair do PT, que também podem ser grandes. Onde está Heloísa Helena: em franca decadência. E Cristóvam, onde está: todos nos cansamos dele já. Mesmo na vida de movimento estudantil, quando deitamos na frente dos ônibus para impedir o adiantamento da plenária final da UEE-SP, quantos abandonaram o barco para exclusivamente estudar, por precisar trabalhar, por se desiludir ou por mera vaidade?
Se Marina ficar, talvez seja o melhor (legítimo, inteligente) movimento para ela.
E na verdade, que se decida logo, pois já está ficando chato.
Indo, com quais outras armas Marina jogará? Ela tem grande experiência: Câmara dos Deputados, Senado, Governo Federal... Qual é o grande projeto de Marina no Governo? Qual foi o grande projeto dela como parlamentar? E no Partido, qual foi a grande sacada dela para dentro PT, um partido que por si só pauta grande parte da mídia? Qual foi a grande articulação dela dentro do Governo para passar um projeto ambiental (como o fez o Ministro Edson Santos com o Estatuto da Igualdade Racial que não foi aprovado por um erro localizado na bancada do PT)?
Ela acha que pode ser candidata a Presidente? Porque então não faz como Eduardo Suplicy fez e pediu prévias? O PT é assim: existem disputas internas legítimas e estatutárias. Nunca vi ninguém levando a cabo uma discussão sobre a candidatura de Marina Silva, parecia apenas uma tentativa de dar centralidade a questão ambiental.
Talvez Marina se creia maior que o PT e maior que o PV para aceitar a empreitada de fazer no verde o que julga não ter feito no partido do presidente da república.
Que Marina Silva tenha uma boa experiência no Partido Verde, melhor do que a que teve no partido que ajudou a construir e ao qual deve sua formação e sua história. Sim: Marina sai do PT com uma dívida que o Partido - o conjunto dos militantes - nunca vai cobrar. Talvez tenha um desempenho pífio nas eleições. Talvez atrapalhe a eleição da Dilma (já ouvi que José Serra cochicha com Marina). Talvez seja eleita. Se eleita, que faça um governo melhor do que o do Presidente Lula, porque o povo brasileiro merece.
E a quem Marina se aliará? Ao PCdoB, ao PSB, PDT; ao PMDB? Ou ao PSDB, DEM, PPS e toda a direita, toda a direita à qual o PV convencionalmente alia-se país afora? E se Marina ganhar a Presidência? Vamos lá: quem será o partido que ajudará Marina no Congresso? Este congresso no qual a Senadora entrou muda e saiu calada? Por que a senadora não usou a tribuna contra o conservadorismo da Casa? Tão corajosa e sonhadora, estranhei sua ausência. Será mais fácil pensar em utopias ao lado da direita?
Marina Silva saiu do PT para ser candidata no campo da direita? E então?
Na campanha, espero que não faça o papel desonesto que Heloisa Helena já fez um dia. Poderá ser mais uma desilusão, mas nós, petistas não cessaremos de sonhar, de militar e de concretizar sonhos. Em cada militante que chega pela primeira vez no Partido, cada projeto aprovado, cada campanha salarial, cada nova turma formada de educação de jovens e adultos em cada ato de movimento popular.
Talvez alie-se justamente aos que hoje fazem de tudo para desestabilizar o governo mais democrático da história do Brasil. É com estes que é possível sonhar, Senadora Marina Silva?
Evidente que não. Evidente que jaz nesta movimentação um ranço de desgosto pessoal, muito íntimo que causa constrangimento em nós e até mesmo em vossa senhoria.
Mas vá sonhar com estes. Nós cá ficaremos, ao lado do milhão de filiados e dos milhões de petistas que aprovam o governo Lula e que sonham e que concretizam um país melhor no cotidiano de nossas lutas. Este é o nosso sonho.
E Marina é parte da realização deste sonho. Hoje, parece querer inscrever-se no roll dos que guardam rancores e se afastam para desferir golpes típicos de casamentos frustrados. Nós também nos frustramos com quem nos abandona. Mas este é o PT, aberto para quem está disposto/a a encontrar soluções coletivas para problemas dos que mais sofrem. Quem sonha com o socialismo para além de fórmulas prontas, que prefere debater à exaustão a seguir uma ordem cega. Quem quer construir o socialismo nos pormenores dos seus afazeres e de suas tarefas. Quem encara a construção de uma Escola Nacional de Formação Política para formar na primeira tacada 100 mil filiados; cuja juventude realiza uma Caravana pelo Brasil que rodou 23 estados, 70 cidades e mais de 17 mil quilômetros e agora entrará numa Campanha de Mobilização e Organização. É o partido que no Governo Federal realizou mais de 60 conferências nacionais, chamando a população e os movimentos sociais para discutir quase que permanentemente o que o Governo deve fazer; que fez dinheiro para a nação com a dívida externa, que multiplicou as universidades públicas federais. Este é o nosso sonho coletivo.
Fizemos a opção de sonhar coletivamente, a fim de fazer nossos sonhos tornarem-se realidade. (Sonho que se sonha só é só um sonho, só. Mas sonho que se sonha junto é realidade.) Tirando nossos sonhos e utopias da gaveta para a luz do sol e sempre ampliando nosso acervo.
Pícaro, Marina Silva pode sair do PT, e se sair, o que faremos, querido amigo? O que sempre fizemos: continuaremos sonhando, coletivamente, todo dia, no PT.
Um grande abraço!
Paulo Ramos (Cientista Social, estudante de pós-graduação da Universidade de Brasília e militante do PT, membro do Coletivo Estadual de Combate ao Racismo do PT/SP)
03/08/2009
O mercado de trabalho no centro do projeto
| Em artigo publicado no Portal do PT nesta quarta-feira (29), o presidente nacional do partido, deputado Ricardo Berzoini, analisa a recuperação do mercado de trabalho brasileiro para traçar as diferenças entre o modelo neoliberal, de conseqüências "nefastas" para o Brasil nos anos 90, e o projeto liderado pelo governo do presidente Lula a partir de 2003. Para Berzoini, a mudança de paradigma foi determinante para que o país não sucumbisse à atual crise econômica mundial.
|
|
31/07/2009
A Trajetória de Dilma Rousseff da Prisão ao Poder
Quando Dilma Rousseff era ministra das Minas e Energia, perguntei-lhe em que condições de saúde deixara a prisão. "Ninguém sai disso sem marcas", respondeu em um gabinete da sede da Presidência da República em São Paulo. Foram três anos de cadeia: de janeiro de 1970, quando foi capturada no centro de São Paulo, ao final de 1972, quando saiu, 10 quilos mais magra, do Presídio Tiradentes. Estava com cerca de 57 quilos, usava manequim 42, tinha 25 anos, e a ditadura que a prendera e torturara, nove.
Uma das marcas à qual a ministra se referiu foi uma disfunção na tireóide, glândula no pescoço cuja principal função é a produção e armazenamento de dois hormônios que auxiliam a regular a taxa do metabolismo e afetam outros órgãos. "Um ano depois que saí da cadeia, a minha tireóide estava completamente detonada", contou. "Foi a forma como o meu organismo reagiu a tudo aquilo. Desenvolvi um hipertiroidismo [produção excessiva de hormônios] e depois um hipo [o contrário]. Foi uma somatização. Mas me tratei e fiquei boa."
No final do mês passado, um dia depois da última sessão de quimioterapia para evitar a volta de um câncer linfático, Dilma Rousseff tinha certeza de que ficaria boa. "Estou felicíssima", ela me disse. "Primeiro, porque foi a última aplicação. Em segundo, porque em 14 de julho se encerra o ciclo de 21 dias durante o qual o organismo elimina os produtos tóxicos. Então, no dia 14 de julho vou estar sem o menor traço de consequências da doença."
A ministra acha que a quimioterapia, que ela pensava que pudesse ser "muito desagradável", não chegou a tanto. Para ela, o mais difícil foi perder o cabelo. "Mas não foi tanto assim. Perdi cabelo em vários locais, e preferi raspar tudo para não ficar caindo aos poucos", disse. "E teve um efeito gratificante: é bom sentir a água escorrendo direto na cabeça." A ministra riu e completou: "Você não pode deixar de procurar as coisas boas. E o cabelo vai crescer, vai voltar."
Além da quimioterapia, a ministra fez acupuntura, melhorou a alimentação e manteve as caminhadas, apesar de, nos dias em que esteve mais frágil, "andar a passo de elefantinho", conforme disse. "Eu caminhava uma hora, e agora depende. Se é logo depois da quimio, ando 40 mi-nutos, e depois vou para 45; o máximo a que chego são 50 minutos. Isso foi bom porque mantive uma pressão ótima." De bom -humor, ela reclamou dos fotógrafos: "De manhã cedo, você há de convir, você não está caminhando do jeito mais bonito. Você está com aquela cara de horror. E os fotógrafos fazendo téc para lá e para cá. O meu cachorro, o Nego, está traumatizado. Eu não vivo sem cachorro."
Ao sair da prisão, em 1972, ela passou uma temporada em Minas, onde fora se recuperar com a família, passou pela casa de uma tia em São Paulo e se mudou para uma casa na avenida Copacabana, à beira do rio Guaíba, em Porto Alegre. Era a residência de seus sogros - Afrânio Araújo, advogado trabalhista e comunista de velha cepa, e sua esposa Marieta. A moradia provisória do namorado de Dilma, Carlos Franklin de Araújo, ex-dirigente da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, podia ser vista da varanda da casa: o presídio da ilha das Pedras Brancas, onde ele cumpria seu terceiro ano de pena.
Ela trocou o uai pelo tchê para estar próxima de Araújo, a quem chama carinhosamente de "Gordo". Os meses que passaram no Presídio Tiradentes - com alguns encontros íntimos e muitas trocas secretas de bilhetes - apontavam um futuro para o romance. Um futuro mais calmo do que o ano em que namoraram durante a perigosa agitação da clandestinidade, com a cabeça a prêmio.
Dilma visitou Araújo na ilha. O garoto Leandro, filho do seu primeiro casamento, também. Na mesma agradável varanda às margens do Guaíba, Araújo recordou: "Ela levava comida, cigarro, muitos jornais. Falávamos sobre a nossa vida afetiva, do filho que queríamos ter e do nosso futuro político, sobre como e onde retomar a militância. Não tinha visita íntima não, mas a gente sempre dava um jeitinho."
Deputado estadual por São Paulo, Rui Falcão, dirigente do Partido dos Trabalhadores, passou quase três anos no presídio da ilha. "A Dilma nos enchia de informação, era simpática, solidária e muito carinhosa", lembrou. Também estava lá Raul Pont, velho parceiro do Presídio Tiradentes. "Ela levava livros políticos disfarçados de romances", contou o ex-prefeito de Porto Alegre e hoje deputado estadual do pt no Rio Grande.
Araújo mora sozinho. Levanta às três da manhã, trabalha de madrugada, faz exercícios, chega ao escritório às cinco e meia. Costuma passar no escritório aos sábados e domingos. Volta e meia tem problemas com um enfisema pulmonar diagnosticado nos anos 90. E, às vezes, como em maio passado, tem que passar uns dias no hospital. Nas crises mais sérias, a ministra pega um avião em Brasília para visitá-lo.
No meio da tarde, a empregada veio perguntar se ele queria algo especial para o jantar. Não queria. O freezer estava abastecido com cervejas e, de quando em quando, ele pegava uma garrafa. Contou que foi dos últimos presos a sair da ilha, quando a cadeia foi desativada. Cumpriu o resto de pena no Presídio Central, onde Dilma o visitava duas vezes por semana.
Em junho de 1974, Afrânio Araújo morreu de infarto. O filho teve autorização para ir ao enterro - com escolta e vigilância - e receber, com Dilma, as condolências do mundo jurídico gaúcho. Por conta do prestígio de Afrânio, a cadeia já não era tão rigorosa. E, com a sua morte, amigos juristas pressionaram para que fossem resolvidas rapidamente as pendências processuais que mantinham Carlos Araújo no Presídio Central. Uma semana depois ele foi solto.
Araújo e Dilma haviam combinado morar num apartamento que ela já havia alugado, mas acabaram ficando na casa à beira
do rio. O menino Leandro era uma presença frequente ali. Dilma fazia cursinho para prestar vestibular em ciências econômicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E tinha um grupo de estudos com dois amigos, também ex-presos políticos. "Ela era uma guria extremamente alegre, muito companheira e carinhosa", disse um deles, Carlos Alberto de Re, o "Minhoca", diretor do teatro da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul em Porto Alegre. "Varávamos a madrugada estudando. Ela sabia mais do que nós, até por já ter sido universitária. Tinha método e disciplina, e não deixava o estudo ficar disperso."
O outro integrante do grupo era Calino Pacheco Filho, com quem Dilma fez o curso de ciências econômicas, concluído em 1977. "Cuidamos de estudar, não tivemos participação ativa no movimento estudantil", disse Pacheco Filho em sua sala da Fundação de Economia e Estatística, a fee, órgão do governo gaúcho. Depois da cadeia, o primeiro emprego remunerado de Dilma, Minhoca e Pacheco Filho foi de estagiários da Fundação.
A retomada da militância política, dessa vez legalmente, deu-se no Instituto de Estudos Políticos e Sociais, o Iepes, mantido pelo partido oficial de oposição, o mdb, presidido no Rio Grande por Pedro Simon. "Ela era uma jovem bonita e uma mulher firme", contou o senador. Sem ter se filiado ao mdb, Dilma organizou debates no Instituto. Iam lá, dar palestras concorridas, intelectuais como Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort e Chico de Oliveira.
Na campanha eleitoral de 1976, Araújo e Dilma se empenharam para eleger vereador o emedebista Glênio Peres, casado com Lícia Peres. Eleito, Peres foi logo cassado por ter feito um discurso denunciando a tortura. "Nós simpatizamos de cara e logo ficamos amigas, como somos até hoje", contou a socióloga, que também é integrante do Diretório Nacional do pdt.
Com Araújo, que não gosta de viajar, Dilma foi à Europa uma vez. Com Lícia Peres, foi três, fora uma outra viagem aos Estados Unidos. Lícia se lembra de ter ido com a amiga a óperas, museus e de terem visitado a casa onde Marcel Proust passava férias, em Illiers-Combray. Ela disse que nos momentos muito difíceis, como a morte de Glênio e, anos depois, um câncer no seio, Dilma foi "absolutamente solidária".
No apartamento de Lícia há na sala uma estante abarrotada de livros. Alguns deles lhe foram dados de presente por -Dilma, como O Mar, do irlandês John -Ban-ville. "Lícia, há muito eu quero lhe mandar este livro. Feliz Natal. Um abração", escreveu ela na dedicatória em dezembro de 2007. Um dos momentos mais tocantes do romance, vencedor do prestigiado Booker Prize, é a constatação de um diagnóstico de câncer. A mulher do narrador, Anne, pergunta ao médico: "E então, doutor - disse ela, um pouco alto demais, dando à voz o tom forte e agudo daquelas atrizes de cinema dos anos 40 -, é a sentença de morte ou tenho esperanças?" Ele respondeu: "Ah, não vamos deixar que a senhora se vá assim, senhora Morden. Pode ter certeza de que não vamos, não."
Dilma falou que gostou muito de O Mar, mas não é dos seus romances de cabeceira. "É um livro de época", afirmou. No momento, ela lê o romance A Trégua, do uruguaio Mario Benedetti, recentemente falecido, e uma coletânea de contos do russo Isaac Babel. Um dos livros que mais lhe chamou a atenção foi Um Estadista do Império, de Joaquim Nabuco. Foi no período em que, como contou, "estava interessadíssima no Segundo Império, e comprei a Coleção Brasiliana".
Além da literatura, Dilma adora artes plásticas. A ponto de dizer: "Só tenho uma tristeza na vida: não tenho o menor talento. Já tentei pintar, mas talento você tem ou não. E eu não tenho." Ela armazena no laptop reproduções da suas obras preferidas. É uma galeria eclética. Lá estão Katsushika Hokusai ("aquele da onda, de mil setecentos e pouco, período Edo"), Lucas Cranach, Bosch, Luca della Robbia ("por suposto"), Caravaggio, Matisse ("gosto muito do Matisse. Ele trabalhou em uma manufatura de tecido e era tecelão"), Remedios Varo ("é uma pintora mexicana, tem um quadro dela que eu amo: Natureza Morta Ressuscitando, que é um barato, e tem outro que também é muito bonito, Bordando o Manto Terrestre"), Iberê Camargo, Renoir.
Uma outra amiga, a psiquiatra Vera Stringuini, lembrou ter perguntado uma vez a Dilma: "O marxismo é ou não é uma ciência?" E de ter obtido como resposta uma outra pergunta: "E o Super-Homem é um pássaro ou é um avião?" As duas aprenderam a dirigir na mesma época e tinham um gosto literário semelhante. "Tivemos a fase Saramago, a fase de ficção científica, principalmente Ray Bradbury, e a fase da tragédia grega", disse. As duas foram alunas de um curso do dramaturgo gaúcho Ivo Bender. Durou um ano, com aulas semanais no auditório da fee. Estudaram peças de Ésquilo, Eurípedes e Sófocles. "Às vezes, chorávamos de emoção durante as aulas", contou.
"A Dilma se apaixonou por Filoctetes, do Sófocles", contou Vera. Filoctetes, personagem que aparece na Ilíada e na Odisséia, era um exímio arqueiro grego. Quando partia para a guerra de Tróia, uma mordida de cobra infeccionou-lhe gravemente o pé. Os companheiros não aguentaram o cheiro fétido e os lancinantes gritos de dor do arqueiro e o abandonaram numa ilha deserta.
"A peça é uma obra-prima", justificou Dilma. "Filoctetes era um chato de galocha. Reclamava o tempo inteiro que a perna estava ferida. Largar ele na ilha é uma solução dentro de uma ética que não é a judaico-cristã. A ética grega não é boazinha, não tem culpados."
Foi para Vera Stringuini que Dilma ligou pedindo o telefone do cirurgião plástico Renato Vieira, que já reformara as pálpebras das duas. E foi Vieira quem fez, na virada do ano, a segunda plástica na ministra.
Paula Rousseff Araújo, a filha do casal, nasceu em março de 1977, quando Dilma tinha 29 anos. Amigas dizem que ela era um tanto
Com Paula crescendo, a mãe retomou os estudos. Queria fazer mestrado na Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, distante uma hora de São Paulo. Às vezes, levava a filha, que ficava no apartamento alugado com uma babá. Paralelamente, Dilma participava de um grupo de discussão com meia dúzia de ex-militantes da var-Palmares. Um deles era Rui Falcão. Outro, Roberto Espinosa, com quem estivera presa.
O grupo, que se reunia em São Paulo, contou com a participação esporádica de Carlos Araújo, que já tomara a decisão de militar no trabalhismo. "Nós aprofundávamos a autocrítica sobre a experiência do passado e discutíamos novos caminhos", disse Espinosa. "Líamos Marx e também renovadores do marxismo como Poulantzas e Althusser." Na lembrança do deputado Rui Falcão, o grupo durou uns dois anos, com reuniões trimestrais. "Não era nostalgia, mas um encontro para troca de informações, para se manter atualizado e avaliar o momento em que a atividade política poderia ser retomada", contou o deputado.
O site oficial da Casa Civil informa que a ministra é "mestre em teoria econômica pela Universidade de Campinas (Unicamp) e doutoranda em economia monetária e financeira pela mesma universidade". Na Plataforma Lattes, a base de dados de currículos e instituições das áreas de ciência e tecnologia, o currículo de Dilma Vana Rousseff registra um mestrado em ciência econômica, na Unicamp, em 1978-1979, com a dissertação "Modelo energético do estado do Rio Grande do Sul", sob a orientação do professor João Manoel Cardoso de Mello. Informa também que ela começou, em 1998, um doutorado em ciências sociais aplicadas - mas não dá o nome do orientador nem o da tese de doutorado.
"Dilma Vana Rousseff nunca se matriculou em nenhum curso de mestrado na Unicamp", informou o diretor de registro acadêmico Antônio Faggiani. Pedi que, além de consultar no sistema informatizado, ele verificasse também o arquivo morto, que abriga os documentos em papel da Unicamp. Isso feito, Faggiani confirmou a informação: "O que existe, oficialmente, é a matrícula no curso de doutorado, em 1998, abandonado em 2004, quando acabou o prazo para a integralização dos créditos."
Ao saber da posição oficial da universidade, a ministra me disse: "Fiz o curso de mestrado, mas não o concluí e não fiz dissertação. Foi por isso que voltei à universidade para fazer o doutorado. E aí eu virei ministra e não concluí o doutorado." Em resumo, o site da Casa Civil está errado: Dilma não é nem mestra nem doutoranda.
Araújo e Dilma participaram das articulações, lideradas por Leonel Brizola, para a recriação do Partido Trabalhista Brasileiro. Quando Ivete Vargas ganhou a sigla ptb, entraram no pdt brizolista. "Nossa dedicação foi integral", disse Araújo. Ele foi três vezes consecutivas deputado estadual - de 1982 a 1994 - e duas vezes candidato a prefeito, perdendo primeiro para Olívio Dutra e depois para Tarso Genro. Jogou a toalha em 1994, depois do diagnóstico de enfisema pulmonar. "O meu sonho era ser prefeito e governador. Não deu, paciência", comentou.
Em novembro de 1977, quando estava na fee, Dilma tomou um susto: seu nome apareceu no jornal O Estado de S.Paulo como um dos 97 funcionários acusados de serem subversivos infiltrados na máquina pública, apontados pelo general Sylvio Frota, ministro do Exército que acabara de ser exonerado pelo ditador Ernesto Geisel. A relação dos nomes, com um resumo dos antecedentes políticos de cada um, constava de uma carta que Frota divulgara.
Dilma era qualificada como militante da var-Palmares e do Comando de Libertação Nacional, o Colina, "amasiada com o subversivo" Carlos Araújo. Na lista estavam também o hoje vice-governador de São Paulo, Alberto Goldman, e o então secretário de Economia e Planejamento do estado, Jorge Wilheim. Entre os gaúchos da fee, havia mais quatro nomes, que, junto com Dilma, foram prontamente demitidos. Sinval Guazelli os anistiou e reconduziu aos cargos quando foi eleito governador do Rio Grande do Sul, em 1977.
Seu segundo emprego, na primeira metade dos anos 80, foi de assessora da bancada do pdt na Assembléia Legislativa gaúcha. Uma de suas amigas, também pedetista, e até hoje por lá, foi a advogada Maria Regina Barnasque, a "Buluga", como Dilma a apelidou. "Ela tinha uma personalidade forte e mostrava uma grande habilidade política", disse Buluga. Ela jurou que, naquele período, Dilma jogava no time de vôlei feminino do pdt.
No governo gaúcho
O ex-governador Alceu Collares, nos seus 81 anos, continua simpático, falante e de posse de uma portentosa memória declamativa. Há que vê-lo, mal a manhã raiou, a escandir, tonitruante e com gestos largos, os versos do poema "O voto é tua arma", de sua própria lavra. Pedetista, ele foi o primeiro prefeito de Porto Alegre eleito diretamente depois da ditadura. O deputado Araújo e Dilma sustentaram a sua candidatura de corpo e alma. Parte expressiva da campanha, inclusive o programa de governo, foi planejada na casa à beira do Guaíba.
Na eleição para o governo estadual, contudo, o pdt tomou uma lavada do candidato peemedebista Pedro Simon. "Foi quase um milhão de votos na frente deles", comemora ainda hoje o senador. Entre outros motivos, porque a chapa pedetista juntava o brizolista Aldo Pinto com um dos quadros civis da ditadura, Nelson Marchezan (seu vice). "A Dilma foi uma grande assessora da nossa campanha", disse o ex-deputado Aldo Pinto. "Ela acreditava muito no pdt", explicou Vera Stringuini. "Empolgada com Brizola, ela me tirou na marra do pt e me levou para o pdt. A exigência da aliança com o Marchezan foi do Brizola. Tivemos que engolir aquele sapo."
Ainda hoje, Dilma faz um raciocínio tortuoso para dizer que a aliança "pode ter sido" um equívoco: "Marchezan foi líder da ditadura, mas nunca foi um enragé. A ala Marchezan era a ala da pequena propriedade radicalizada. E ele era um cara ético."
Alceu Collares disse que, por influência de Carlos Araújo, "mas também pela competência dela", nomeou Dilma para o seu primeiro cargo executivo, o de secretária municipal da Fazenda.
Dilma se afastou do cargo para se dedicar à primeira campanha do marido à prefeitura de Porto Alegre, em 1988, contra o petista Olívio Dutra. Foi substituída na Secretaria da Fazenda pelo advogado e jornalista Políbio Braga.
No salão de café de um hotel cinco-estrelas, Políbio Braga contou que, antes que decidisse aceitar o cargo, Dilma o chamou para uma conversa e disse: "Não assume não, que isso pode manchar a tua biografia. Eu não consigo controlar esses loucos e estou saindo antes que manche a minha." Collares afirmou que a gestão de Dilma "foi da maior transparência e competência". Políbio Braga tem outra lembrança: "Ela não deixou sequer um relatório, e a Secretaria era um caos."
A eleição de Olívio Dutra inaugurou os dezesseis anos em que o pt gaúcho ficou no poder. Com o pdt em baixa, Dilma Rousseff foi nomeada, em 1989, diretora-geral da Câmara Municipal de Porto Alegre. Joaquim Felizardo foi funcionário da Câmara no mesmo período. Ele contou que Dilma foi demitida pelo presidente da Casa, o vereador Valdir Fraga, porque chegava tarde ao trabalho. "Eu hoje brinco com o Fraga: 'Tu conseguiu exonerar a mulher que vai mandar no país, tchê!'" O ex-vereador Valdir Fraga tem uma versão mais benigna para a demissão: "Eu a exonerei porque houve um problema com o relógio de ponto."
Collares foi eleito governador em 1990 e Dilma virou presidente da fee, na qual ficou até o fim de 1993. O peso de Araújo e de seu grupo de militantes, que era forte e articulado, ajudou Dilma a ser nomeada para a Secretaria de Energia, Minas e Comunicações. Ficou no cargo até dezembro de 1994. Nos últimos meses de trabalho, seu casamento chegou ao fim.
A tarde ia se pondo sobre o Guaíba e Araújo levantou-se, foi a uma estante e pegou um porta-retrato onde aparecem seus filhos Rodrigo, de 14 anos, e Paula, ao lado do marido. A gravidez da mãe de Rodrigo, entre 1994 e 1995, pôs fim aos 26 anos de casamento entre Dilma e Carlos Araújo. Ao saber, Dilma botou as coisas dele em malas e ele saiu da própria casa. "Aconteceu", contou Araújo. "Havia um desgaste na nossa relação afetiva."
Vera Stringuini, a amiga do curso de teatro, consolou Dilma. Para comentar a separação, ela recorreu a uma frase do filme Frida Kahlo, a pintora mexicana que teve um caso com Leon Trotsky quando era casada com o muralista Diego Rivera: "Tu podes ser infiel, mas não podes ser desleal." Vera disse: "A deslealdade cria uma rachadura, e Dilma não aguentou."
"Depois a gente se reconciliou e voltei para casa", contou Araújo. O acerto durou até o ano 2000, quando Dilma alugou um apartamento e se mudou. Araújo namora uma arquiteta que se dá bem com Dilma. Seus três filhos convivem sem problemas entre si e Dilma se dá bem com todos eles, inclusive Rodrigo. "Tenho muito orgulho da Dilma", disse Araújo. Eles se encontram com frequência e se falam sempre pelo telefone. Ao saber que a ministra tinha câncer, Araújo foi a Brasília e ficou uns dias com ela.
Acabado o governo Collares, Dilma voltou para a Fundação de Economia e Estatística e foi editora da sua revista Indicadores Econômicos. Publicou ali alguns artigos técnicos com discretos laivos políticos. Um deles, "A privatização do setor elétrico no Chile: o erro mudou", de 26 pá-ginas, critica os excessos nos dois sistemas - o estatal e o privado - e defende uma solução híbrida, com controle e regulação do primeiro sobre o segundo. Num trecho, a ministra sustenta que a propriedade privada não garante a ausência de interferência política: "Tanto o Estado pode estar interessado em controlar uma indústria privada, como também, o que até é mais usual, uma indústria privada pode estar interessada em manipular o Estado para seu próprio benefício econômico."
Ela voltou à vida pública em 1999, quando o petista Olívio Dutra foi eleito governador, dessa vez apoiado pelo pdt no segundo turno. Levou-a para a mesma Secretaria de Energia. Dilma era uma entre meia dúzia de pedetistas que assumiram postos no primeiro escalão. "Eu já a conhecia e respeitava", disse Olívio Dutra, entre duas bombadas de chimarrão. "E a nomeei também porque ela estava numa posição mais à esquerda no pdt, menos populista."
Leonel Brizola, no entanto, achava que o pdt merecia mais pelo apoio no segundo turno. Argumentava que todos os cargos juntos não representavam 1% do orçamento do governo. Olívio Dutra contou que Brizola, nos telefonemas que lhe dava, pedia mais e mais cargos. Como o governador não cedeu, Brizola passou a pressionar os pedetistas a saírem da administração petista.
Com a proximidade das eleições municipais de 2000, o conflito se acentuou. Brizola queria Collares como candidato e o pt indicava Tarso Genro. Dilma defendia a continuidade da aliança que elegeu Olívio Dutra e, portanto, a candidatura de Tarso Genro. Ela disse à época - em contraste com o apoio que dera à dobradinha Aldo Pinto-Nelson Marchezan - que não aceitava "alianças neoliberais e de direita".
Dilma ficou no cargo e apoiou o candidato petista. Alceu Collares foi para o segundo turno da eleição, numa aliança que congregava, pdt, pfl,ppb, psb, pmdb e pl - e ainda assim Tarso Genro ganhou. Dilma filiou-se ao pt.
Brizola chamou de traidores os que saíram do pdt. "Venderam-se por um prato de lentilhas", disse à imprensa. "Eu afirmei e reafirmo que naquele momento eles foram traidores", ecoou Alceu Collares. Olívio Dutra analisou assim a situação: "Eu sempre disse que seria uma honra enorme se a Dilma viesse para o pt. É claro que eu tive um protagonismo, mas não houve cooptação.
A engenheira Cláudia Hofmeister, que também trabalhou com Dilma na Secretaria de Energia, contou que, no primeiro mês da gestão, janeiro de 1999, os gaúchos sofreram 31 cortes de energia. A Secretaria organizou então um programa emergencial de obras, com a participação das estatais da área e de cinco empresas privadas, o que resultou em um aumento de 46% na capacidade de atendimento até o final da gestão.
Quis a natureza que o Rio Grande do Sul, como o Paraná e Santa Catarina, escapasse do apagão que infernizou o Brasil no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso: não houve seca por lá. "Não havia sentido em fazer um racionamento por solidariedade no Rio Grande, nem em Santa Catarina, nem no Paraná", explicou Pedro Parente, chefe da Casa Civil no governo de Fernando Henrique, a quem coube gerir a crise do apagão. Mesmo assim, o consumo de energia diminuiu na região Sul.
Dilma esteve com Pedro Parente em duas reuniões, e defendeu os interesses do estado e da iniciativa privada gaúcha - ambos queriam receber uma compensação pela redução do consumo, como ocorreu nos estados em que houve o racionamento. Como no Sul a redução do consumo foi voluntária, o governo tucano não cedeu e a secretária botou panos quentes nos ímpetos sulinos. "A Dilma soube administrar a crise entre os grandes consumidores gaúchos de energia e o governo federal", disse Parente. "Ela era pragmática, objetiva e demonstrou que tinha um diálogo fluido com o setor empresarial."
Nas Minas e Energia
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva contou a piauí, em uma entrevista no fim do ano, como conheceu Dilma Rousseff:
Eu sabia que ela era secretária do Olívio Dutra, mas não tinha muito contato, até porque ela era do pdt. Quem cuidava do meu grupo de energia era o Pinguelli Rosa. Então, a gente tinha, a cada ano, três, quatro reuniões com vários engenheiros do setor energético. Já próximo de 2002, aparece por lá uma companheira com um computadorzinho na mão. Começamos a discutir e percebi que ela tinha um diferencial dos demais que estavam ali porque ela vinha com a praticidade do exercício da Secretaria de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. Aí eu fiquei pensando: acho que já encontrei a minha ministra aqui. Ela se sobressaiu em uma reunião que tinha quinze pessoas. Pela objetividade e pelo alto grau de conhecimento do setor. Foi assim que ela apareceu no meu governo.
As reuniões com Lula ocorriam no Instituto Cidadania, em São Paulo, que ele montou para fazer as vezes de governo paralelo. O físico e engenheiro nuclear Luiz Pinguelli Rosa era a estrela maior, seguido de Ildo Sauer. A missão deles era elaborar a plataforma da área de energia para a campanha presidencial. Em junho de 2001, Pinguelli convidou Dilma a participar.
"Ela era uma menina tímida no meio de grandes professores", disse Ildo Sauer. "Mas toda hora ela puxava aquele computador, que parecia ter tudo, até análise sobre o aço da palheta da turbina." Algumas vezes Dilma levou, como convidado, o engenheiro Luiz Oscar Becker, seu subordinado na secretaria gaúcha. Já separada de Araújo, Dilma e Becker eram namorados. (A ministra não quis comentar sua ligação com Becker.)
Maurício Tomalsquim, hoje presidente da Empresa de Pesquisa Energética, também participava do grupo. Divergia de Pinguelli e de Sauer, frontalmente contrários às privatizações que o governo promovia no setor - para eles, responsáveis pelo apagão. Tomalsquim era contra o estatismo e Dilma também. "Eles diziam, brincando, que eu era o neoliberal do grupo", contou Tomalsquim. Disse também que estava claro para todos no grupo que, se Lula fosse eleito, o ministro das Minas e Energia seria Pinguelli Rosa.
Mal se anunciou a vitória do pt, Pinguelli Rosa telefonou para Ildo Sauer e disse: "Vamos montar o grupo de transição da área de energia aqui no Rio mesmo, que é mais fácil para mim." O tempo passava, no entanto, e não chegava o convite de Lula. Avaliou-se que o presidente reservara Minas e Energia para o pmdb, com o qual José Dirceu acertava um acordo estratégico. Avaliação errada, segundo José Dirceu. "Lula estava decidido a nomear a Dilma Rousseff", me contou o ex-ministro. "Para o pmdb, discutiam-se outros ministérios, como o de Transportes, o de Comunicações e o da Saúde."
Pesou na decisão de Lula a simpatia que Antonio Palocci tinha pela secretária gaúcha. Mais do que pessoal, a simpatia era política: o ministro da Fazenda estava informado sobre o trânsito fluido que ela mantinha com empresários do setor - assustados com a possível indicação de Pinguelli Rosa - e sabia de sua concordância com a "Carta aos Brasileiros", o documento de campanha que simbolizava a mudança do pt.
Se ainda restassem dúvidas quanto às idéias de Dilma, ela as enterrou numa viagem a Frankfurt, a convite do ministro tucano Pedro Parente. Era um seminário com investidores estrangeiros do setor elétrico, promovido pela Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha. "A presença dela foi muito importante porque os investidores ficaram com uma visão clara de que não haveria ruptura", contou Parente.
Olívio Dutra disse que, "depois da eleição, o Lula me consultou. Eu falei pra ela: 'Olha, Dilma, o Lula vai te convocar para a transição na área de Minas e Energia e eu te digo que tem mais coisas para tu assumir'". O que o Lula viu nela?, perguntei, e ele respondeu: "Um certo comedimento, o fato de ela ter uma visão articulada da área, uma discrição, uma modéstia sem falsidade. Ela com o laptop dela. Está tudo organizado ali. Tem números, elementos, quadros. Ela é sempre afirmativa. Posso ter pesado um pouco na balança naquele momento, mas, da transição para frente, o mérito é todo da Dilma."
A ministra tratou de se aproximar de José Dirceu.
Dilma levou para o governo de transição, em Brasília, a amiga Maria Regina Barnasque, a Buluga. No começo de dezembro, Dilma recebeu um telefonema. Quando desligou, estava emocionada. Chamou a amiga e disse: "Era ele. Eu vou ser a ministra das Minas e Energia." Buluga correu para o abraço, mas foi contida: "É segredo absoluto. Não podemos nos emocionar." Nos feriados do Natal, foi a vez de Tomalsquim receber um telefonema: Dilma o chamou para ser o secretário-executivo do Ministério.
O que Dilma fez de essencial nas Minas e Energia foram três coisas: cumpriu os contratos do governo anterior, evitou outro apagão e construiu um modelo para o setor elétrico menos estatizante do que queria o modelo Pinguelli-Sauer. Um dos seus interlocutores nessas tarefas foi o empresário Luiz Fernando Leone Vianna, presidente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica. Vianna ia tanto ao Ministério que Dilma dizia que ele já tinha uma xícara própria por lá.
"A gestão foi boa porque partiu para um modelo competitivo", disse o empresário, em Brasília. "Ela não só manteve como ampliou o mercado livre de energia, e, mais importante, usou o critério técnico, e não o ideológico. A Dilma participava pessoalmente, ligando, perguntando. Ela ouve, processa e decide. A decisão é toda dela."
Pinguelli Rosa acabou sendo nomeado presidente da Eletrobrás. Dilma contou. a amigos que sempre soube que, fiando-se na amizade com Lula, Pinguelli lhe criaria dificuldades. No início do governo, ele montou uma equipe para discutir a organização da área de eletricidade - o Grupo de Estudo para a Nova Estruturação do Setor Elétrico (Genese), que Dilma logo implodiu.
O ex-preso político Alexandre Magalhães da Silveira foi convidado por Pinguelli Rosa para ser diretor-financeiro da Eletrobrás. Doutor em matemática, ele aceitou o cargo por amizade a Pinguelli e por acreditar que o governo Lula modernizaria o setor. Decepcionou-se logo, quando viu a solidez de feudos cristalizados. Um deles, o da Eletronorte, era comandado pelo senador José Sarney.
Dilma se aborreceu com idéias que Silveira expusera em um encontro com acionistas da Eletrobrás. Numa reunião com os presidentes e diretores de todas as estatais de energia - umas cinquenta pessoas -, no 9º andar do Ministério, ela se exaltou e o atacou com dureza. Ele ouviu o destempero, engoliu em seco e não respondeu. Pinguelli tomou as dores do amigo e subordinado: se disse também desrespeitado e colocou o cargo à disposição. Enquanto Silveira abandonava a sala, a ministra reconsiderou e pediu que Pinguelli continuasse no posto.
Ele continuou à frente da Eletrobrás, mas passou a ironizar as oscilações do humor da ministra: "Essa moça formata o disquete a cada semana", comentava. Silveira ficou mais alguns meses no cargo, não conseguiu a modernização com a qual sonhara e anunciou que deixaria a empresa. O anúncio provocou uma queda das ações da Eletrobrás. A ministra o chamou e empenhou-se em que ele continuasse no posto. Silveira não aceitou. Meses depois, Pinguelli Rosa também saiu, criticando o modelo que foi implantado.
Maurício Tomalsquim disse que, no começo, a ministra não gritava com ele. Quando se conheceram melhor, passou a gritar esporadicamente: "É o jeito dela. Não é pessoal. E em cinco minutos fica tudo bem." Ele lembrou que, quando assumiu o cargo, "o Ministério não tinha quadros próprios. Eram uns dez motoristas, um engenheiro e o resto era tudo funcionário burocrático. Uma falta de estrutura quase total. A Dilma montou a equipe e queria saber tudo nos mínimos detalhes".
O presidente da Light, José Luiz Alquéres, conheceu Dilma Rousseff quando ela era secretária municipal da Fazenda. Ele era diretor da Eletrobrás, e queria que uma estatal gaúcha pagasse uma dívida de bom tamanho. "Lembro que ela foi uma defensora radical dos pontos de vista gaúchos, inteligente e correta", disse em uma sala de reuniões da empresa, no centro do Rio. Mais tarde, quando ela era secretária de Energia, Alquéres era presidente da Alstom no Brasil. Queria comprar uma falida estatal gaúcha de energia, a Ansaldo Coemsa. Nas negociações, a secretária conseguiu que o número de demissões fosse menor.
Alquéres, um especialista do setor, contou que Dilma gostava de aprender. "Às vezes, ela pedia as minhas anotações", lembrou. Em junho de 2003, Alquéres organizou um almoço para ela, em seu apartamento de Ipanema, com vários ex-ministros de Minas e Energia, inclusive os dos presidentes Castelo Branco e Médici. Por sugestão do anfitrião, fizeram uma rodada em que cada um avaliou os problemas da área e a forma de resolvê-los. "Ela mostrou humildade e fez questão de anotar tudo num caderno aramado que tirou da bolsa." Na avaliação do presidente da Light, o modelo que Dilma implantou no setor elétrico "é excelente e está ajudando o segmento". Ele só critica a lentidão com que foi implementado, mas acha que esse foi um problema do governo, e não da ministra.
O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires, tem uma crítica semelhante: "O setor ficou dois anos sem investimento." Pires acha que a ministra "vendeu a imagem de que não é ambiciosa, de que está ali para servir. Ela é o garçom do presidente".
Ildo Sauer passou a antipatizar com sua companheira do Instituto de Cidadania quando foi visitá-la no Ministério para lhe entregar o livro A Reconstrução do Setor Elétrico Brasileiro. Fruto das antigas discussões, o livro defende a visão estatizante. Dilma o abriu, deu uma folheada e logo disse que discordava de muita coisa. Sauer aceitou, tempos depois, o cargo de diretor de Gás e Energia da Petrobras.
Foi outra pedra no sapato da ministra. "Se vocês não se enquadrarem, eu chamo o presida", dizia Dilma a Sauer e a outros diretores da Petrobras, inclusive ao presidente, Sergio Gabrielli, nos momentos de maior divergência. Num deles, sobre o preço mínimo do gás num leilão de energia, o presida foi efetivamente chamado a decidir a questão. Organizou-se uma reunião, numa tarde de sábado. A ministra quase não deixava Gabrielli e os diretores falarem. "Eles estão enrolando o senhor, presidente", dizia. "Isso não é como eles estão dizendo", atalhava. "Deixa eles falarem, Dilma", teve que pedir o presidente, mais de uma vez. Divergindo da ministra, em 2007 Sauer deixou o cargo.
Luciano Zica cumpriu três mandados como deputado federal do pt e hoje não quer mais saber de política. Zica, que conheceu e ficou amigo de Dilma em 2001, disse que "ela era vibrante, tinha uma grande capacidade de convencimento e era muita astuta na argumentação". A ministra não se aborreceu quando ele chegou atrasadíssimo para um almoço.
As coisas mudaram quando o deputado divergiu das condições em que se daria a sexta rodada do leilão de áreas de exploração de petróleo. Como não convenceu a ministra a acolher suas ponderações - que hoje considera "meio quixotescas" -, Zica levou-as formalmente ao presidente Lula e pediu a suspensão do leilão.
"Aí ela ficou brava", ele contou. "Me ligou, me chamou de desleal, foi muita dura, bastante autoritária, esqueceu que, além de amigo, eu tinha um mandato parlamentar." Ficou-lhe na memória uma frase dela: "Pô, meu, você pisou na bola." Na avaliação da ministra, a desavença com Zica "foi uma questão de governo, e não pessoal. Porque um deputado do governo não entra com uma ação contra o governo sem avisar". Para o ex-deputado, o episódio mostrou que "a Dilma é a pessoa mais democrática do mundo, desde que se concorde 100% com ela".
Na Casa Civil
O secretário particular do presidente, Gilberto Carvalho, recebeu-me em seu gabinete e contou que, no início do governo, Dilma Rousseff via Lula pelo menos uma vez por semana. "Duas coisas colocaram a ministra Dilma no visor do presidente: a coragem de encarar situações difíceis e a capacidade técnica", disse.
A ministra contava com o apoio dos dois pilares do governo: os ministros Antonio Palocci, da Fazenda, e José Dirceu, da Casa Civil. Mas o escândalo do mensalão provocou a queda de José Dirceu. E o caseiro Francenildo dos Santos Costa teve o seu sigilo bancário violado e Palocci saiu do governo. Com a debacle dos dois, em vez de perder poder, Dilma ficou mais forte: Lula a nomeou chefe da Casa Civil.
O ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, que trabalha no mesmo andar de Gilberto Carvalho, é um dos três ex-guerrilheiros do primeiro escalão, junto com Carlos Minc, do Meio Ambiente, e Dilma Rousseff. Brinquei com Martins dizendo que o governo Lula era o que tinha o maior número de ex-guerrilheiros no mundo. "Um dos maiores", ele devolveu, sorrindo.
Por que Lula escolheu Dilma para a Casa Civil? Franklin Martins respondeu: "Naquele momento, ela tinha conquistado uma confiança muito grande do presidente. O Ministério das Minas e Energia não era periférico. Lula sabia que outro apagão seria desastroso. E ela executava, trazia resultados. Lula percebeu que ela fazia as coisas andarem."
O presidente percebeu também que, por mais penosas que tivessem sido as quedas de Dirceu e Palocci, ele se livrara da disputa surda entre os dois superministros: ambos almejavam sucedê-lo. Além de Dilma não cogitar a Presidência da República, tinha a vantagem de não ser uma petista orgânica. Viera do pdt e não integrava nenhuma das alas do pt, o que facilitava o seu trânsito.
"Com a indicação da Dilma, o presidente surpreendeu todos nós, inclusive a mim", disse Gilberto Carvalho. O "a mim" se justifica: Carvalho está com Lula quase todo o tempo, durante a jornada de trabalho. Seria natural que tocasse no assunto. Mas Carvalho garante que o presidente não lhe falou nada. Ao escolher Dilma, Lula quis tirar a Casa Civil dos holofotes e dar-lhe uma feição mais técnica, mais gerencial do que o perfil político implementado por José Dirceu.
"Foi uma sacada solitária do presidente, como algumas que ele costuma ter", disse Carvalho. Ao ser informado da escolha de Dilma, o secretário demonstrou surpresa e apreensão. Lula captou a preocupação e tranquilizou seu secretário: "A parte política a gente toca." Lula também não consultou José Dirceu sobre quem o sucederia na Casa Civil. "Fui informado pelo presidente e a apoiei, de forma enfática, desde o primeiro momento", disse ele. "E não errei: a ministra tem estado à altura do cargo e das responsabilidades."
Na intimidade, Dilma chama Carvalho de Gilbertinho, e ele a chama de Tia. Ela deu-lhe de presente as obras completas de Adélia Prado, e ganhou do ex-seminarista uma imagem de São Francisco de Assis. Num café da manhã, a ministra contou ao secretário que ser indicada para a Casa Civil foi um susto muito maior do que a indicação para Minas e Energia. Disse-lhe que realmente não esperava, e estava com medo de não dar conta do recado.
Dilma levou para a Casa Civil alguns gaúchos de confiança. Deixou outros nas Minas e Energia, onde ainda manda bastante, e em estatais do setor elétrico. É o caso de Valter Cardeal, diretor da Eletrobrás. Levou também Erenice Guerra, seu braço direito, e o advogado Beto Vasconcelos, seu chefe do setor jurídico, que despacha com Lula quase que diariamente. É ele quem leva a papelada que move o governo para o presidente assinar. Beto é filho de um ex-companheiro de militância, cadeia e tortura da ministra, o advogado Gilberto Vasconcelos. Pelo menos duas outras companheiras das mesmas agruras são suas assessoras: Celeste Martins e Sônia Maria Lacerda. Todos eles sabem que a chefa tem um temperamento áspero - e tomam cuidados para não irritá-la.
Já estava na Casa Civil, desde os tempos de José Dirceu, Miriam Belchior, do pt de São Paulo, uma funcionária organizada, eficaz e mandona. As duas tiveram vários atritos. "Vocês têm que se dar bem", Lula disse a ambas mais de uma vez. Se não morrem de amores uma pela outra, agora trabalham em harmonia." Miriam Belchior é uma das responsáveis pelo acompanhamento das obras do pac, o Programa de Aceleração do Crescimento que é a menina dos olhos de Lula e serve de alavanca para Dilma forjar uma imagem pública de "fazedora" e boa gerente.
Na Casa Civil, Dilma passou a se reunir com o presidente praticamente todos os dias de trabalho, e até em feriados e, excepcionalmente, nos finais de semana, quando é convidada a jogar mexe-mexe, um jogo de cartas, com dona Marisa e o marido. Tirante o círculo de assessores diretos - Gilberto Carvalho, Franklin Martins e Clara Ant -, Dilma é quem mais vê Lula. Chama-o de presidente, ou de senhor presidente, e o presidente a chama de dona Dilma, ou de Dilminha.
Um levantamento feito pelo gabinete pessoal do presidente mostra que, desde que assumiu a Casa Civil, em junho de 2005, até o dia 17 do mês passado - somando-se os despachos entre ela e o presidente, reuniões com outros ministros, audiências com gente de fora, cerimônias, viagens, cafés da manhã, almoços e jantares -, a ministra e o presidente estiveram juntos
1 093 vezes. Em 49 meses, é uma média de mais que um encontro por dia útil. As reuniões entre o presidente e a ministra, sozinhos, foram 144 - três por mês.
O levantamento permite ver que a doença da ministra diminuiu o número de reuniões dela com o presidente: foram nove encontros entre janeiro e 17 de junho deste ano, sendo que nenhum em maio e em junho. No primeiro semestre do ano passado, foram 25 despachos.
Nas audiências com representantes de entidades, empresários, visitas internacionais e imprensa -, a ministra esteve presente 352 vezes. Tomou café, almoçou ou jantou com o presidente 28 vezes. Acompanhou-o em nove viagens internacionais e 77 nacionais. As viagens pelo Brasil deslancharam depois do lançamento do pac: foram 27 em 2008 e já vinte este ano, mais do que o dobro das onze em 2006 e doze em 2007.
Gilberto Carvalho explicou o que a ministra da Casa Civil faz: "Ela chama ministro por ministro, vê os projetos de cada um, o que é que está entravando as ações do governo, e sai destravando."
Candidata
O ministro Franklin Martins, que esteve presente em reuniões entre a ministra e o presidente, fez a seguinte avaliação da química entre ambos: "Eles têm uma relação de pai e filha. Ele, de um pai com um orgulho imenso da filha, por saber que ela tem qualidades, capaci-dade de ir ao essencial e produzir resultados. E ela o admira profundamente e tem uma absoluta lealdade a ele."
Expus à própria ministra a interpretação de Franklin Martins, e ela caracterizou assim sua relação com o presidente:
O presidente me cobra quando tem que cobrar. Mas tenho que reconhecer que, muitas vezes, afetivamente - e mais ainda com essa história da doença -, ele me protege. Agora, a nossa relação é muito objetiva: eu tenho metas para realizar, cumpro o que prometo, dou satisfações. Não recebo nenhuma facilidade nisso. Mas ele é uma pessoa extremamente afetiva, que respeita a dimensão pessoal. Na minha doença, ele foi extremamente protetor. O presidente combina muito bem a intuição, o saber emocional, com a mais fria razão, com a avaliação racional. Por isso ele é uma figura excepcional.
Lula também gosta da disposição aguerrida dela em defender os interesses do governo, principalmente quando a briga é com gente poderosa.
Uma dessas brigas foi travada com a Odebrecht, quando a empreiteira perdeu o leilão para a hidrelétrica de Jirau. A empresa tinha levado a hidrelétrica de Santo Antônio, no mesmo rio Madeira, em Rondônia, e estava certa de levar a de Jirau. Mas perdeu para um consórcio que incluía a Tractebel e a Camargo Corrêa. Além de surpresa com a derrota, a Odebrecht soube, só após o resultado do leilão, que o projeto vencedor projetara a usina em um local a 12 quilômetros do que estava acertado. A mudança possibilitou a redução drástica do preço da tarifa - e foi esse o critério que prevaleceu, coincidindo com a posição da ministra.
A Odebrecht reclamou do que considerou uma truculência, e ameaçou ir à Justiça. Mas não foi. A versão do Planalto é que tanto a ministra quanto o presidente se empenharam muito - junto a Emílio Odebrecht e seu filho Marcelo, respectivamente - para evitar a pendência judicial. Não é uma versão que a Odebrecht assine embaixo. A empreiteira não foi à Justiça porque o Ministério Público o fez. Solicitada a municiar essas ações, não economizou documentos. A direção da empreiteira ficou vivamente impressionada, para não dizer assustada, com a energia da ministra no embate. (Procurada, a Odebrecht não falou sobre a disputa.)
Impressão semelhante teve a multinacional Neoenergia quando tentou comprar as ações da Votorantim na cpfl Energia, uma poderosa holding do setor elétrico controlada pela empreiteira Camargo Corrêa. Depois de fazer uma oferta que até um outro sócio da cpfl, a Previ, considerou ótima, a Neoenergia viu a própria Camargo Corrêa comprar as ações.
Quando começaram a circular no governo as notícias de que a Petrobras havia descoberto enormes depósitos de óleo no fundo do mar, Clara Ant, assessora especial do presidente, cruzou com a chefe da Casa Civil num corredor do Planalto e lhe disse, entusiasmada: "Dilma, você é o nosso pré-sal!" A ministra não entendeu a brincadeira. Clara Ant queria dizer que, pela sua avaliação do xadrez político, e não por dispor de informações concretas, Dilma tinha condições de ser uma peça no jogo sucessório, talvez a rainha. A ministra era uma descoberta inesperada e com enorme potencial futuro - um pré-sal político.
Os nomes de que Lula dispunha para jogar no tabuleiro sucessório cabiam nos dedos da sua mão. Todos eram ministros e do pt: Marta Suplicy, do Turismo, Tarso Genro, da Justiça, Fernando Haddad, da Educação, e Patrus Ananias, do Desenvolvimento Social.
Cada qual tinha sua cota de virtudes e problemas. Marta é mulher e é conhecida nacionalmente, mas foi derrotada por José Serra no governo de São Paulo. Tarso foi responsável pela implantação de um dos programas vitoriosos do governo, o ProUni, e assumiu a presidência do pt e pacificou o partido num momento de grande perigo, a crise do mensalão. Mas está à esquerda de Lula e lidera uma das tendências do pt. Haddad é jovem, operoso e não tem imagem de político, mas nunca disputou eleição, não tem trânsito junto ao empresariado nem proximidade com o presidente, além de não dispor de apoio na base principal do pt, São Paulo. Patrus Ananias é sério, mas seu trabalho no governo não deslanchou e é desconhecido fora de Minas Gerais.
Lula surpreendeu todos não apenas por ter escolhido Dilma, e sim porque se adiantou a todas as articulações e botou a sucessão na rua, impedindo que os pré-candidatos organizassem suas forças. A preferência do presidente se manifestou, junto ao seu círculo mais próximo, quando o pac começou a ser pensado, no primeiro semestre de 2007.
Em tom de brincadeira, o presidente dizia frases como "Estou pensando em lançar a Dilma candidata". Como as repetisse, constatou-se que não era piada. Era uma sondagem informal em vias de se tornar realidade.
Carvalho não escondeu a surpresa. Considerava a ministra um quadro técnico, de perfil gerencial. "Temos que prepará-la politicamente", sugeriu ele a Lula. "Essas coisas a gente vai ajeitando", respondeu o presidente. "Dilma é inteligente, ela vai aprendendo."
A sondagem do presidente chegou tempos depois à imprensa. O pt foi pego de calças curtas e não combateu a escolha de Dilma. O único a esboçar um gesto de resistência foi Tarso Genro, mas já no final de 2008. Ele deu a entender, em uma entrevista à Folha de S.Paulo, que achava que o lançamento de Dilma poderia ter sido precipitado, mas logo em seguida ressalvou: "Sempre que achei que o presidente tinha dito uma coisa arriscada, eu estava errado e ele, certo." Lula não disse nada ao ministro da Educação, mas falou a outros que Tarso não deveria ter falado aquilo.
Lula reforçou sua convicção no dia em que a ministra, em pleno Congresso, com platéia e televisão, passou um pito no senador José Agripino, do dem. Foi em maio de 2008, na Comissão de Infraestrutura. A ministra havia dito, em entrevista à Folha, que, durante a tortura, usara a tática da mentira como forma de sobrevivência, e que tinha muito orgulho disso. Agripino levou a frase ao pé da letra e insinuou que a ministra, se mentira antes, poderia mentir em outras ocasiões. Dilma lhe passou uma descompostura. "Não tive a intenção de ofendê-la", disse o senador em seu gabinete. "Ela se vitimizou. Porque eu perguntei sobre sinceridade, e ela me respondeu sobre tortura."
No ano passado, a deputada Maria do Rosário procurou a ministra. Queria o seu apoio, na disputa interna no pt gaúcho, contra o ex-ministro Miguel Rosseto, para se lançar candidata a prefeita de Porto Alegre. "Estou apoiando o seu adversário", disse-lhe Dilma, sem enrolar. "Mas, se você ganhar a Convenção, terá o meu apoio." Rosário ganhou. "Ela cumpriu a palavra", contou a deputada.
A ministra esteve duas vezes em Porto Alegre para participar da campanha. Numa delas, esqueceu um batom vermelho-acobreado no estúdio de gravação. "Foi uma confusão", contou Rosário. "A assessoria dela deixou a minha equipe maluca. Ela queria porque queria o batom. Graças a Deus um assessor meu achou, e mandamos para Brasília." A deputada diz que a ministra, como candidata, "tem uma qualidade que todos os outros petistas não têm: o apoio do presidente Lula".
Em quatro meses de apuração desta reportagem, durante os quais foram entrevistadas setenta pessoas, nenhuma disse que Lula discutiu com Dilma, diretamente, a sua candidatura à sucessão. A começar pela ministra. "Nunca conversei sobre essa questão com o presidente", afirmou. Por isso, ela diz: "Não sou candidata ainda."
Mas ocorre de Lula fazer piada sobre o assunto na frente dela. "Quem disse que a Dilma é a candidata?", perguntou o presidente, por exemplo, a Franklin Martins e Gilberto Carvalho quando os dois, na frente da ministra, puxaram propositalmente o assunto.
Carvalho se lembra de um almoço com Dilma. Ele falou: "Tia, se prepara porque você é a bola da vez." Ela disse: "Mas como, Gilbertinho, se ele nunca falou comigo a respeito?" O secretário particular do presidente contrapôs: "E talvez nunca fale. Mas se prepara porque a coisa vai indo."
Foi o que a ministra fez, e continua fazendo, mesmo depois de saber que tinha um câncer linfático. Ela manteve o diagnóstico em segredo o máximo que pôde. O presidente só soube que ela faria uma cirurgia 48 horas antes. Sua filha Paula, na véspera. "Fica tranquilo, eu vou tirar de letra" foi a frase pós-cirurgia mais dita aos amigos de governo.
A ministra incorporou a idéia de que estava curada, e de que era preciso fazer o tratamento apenas para que não houvesse recidiva. Com isso na cabeça, manteve o ritmo de trabalho. Quem tenta convencê-la a diminuir, ou até a se licenciar, ouve, além de uma aula sobre a doença, a explicação de que efeitos colaterais da quimioterapia - como dores fortes nas pernas que a levaram com urgência para o hospital - são consequências dos medicamentos, e não do seu ritmo de trabalho. "Ela tem muita dificuldade de assimilar a fragilidade", disse Carvalho. "A gente tem que dar bronca para ela se dar ao direito de não abusar."
Encerrada a quimioterapia, Dilma parte agora para a radioterapia. No final do mês, fará a primeira de quinze aplicações. "É um tratamento menos invasivo, não tem efeitos colaterais, ou seja, não cai cabelo, não dá enjôo, não diminui a fome, não te altera", disse. "Farei a radioterapia no Hospital Sírio-Libanês, que, ao que me consta, tem aparelhos bastante precisos."
A literatura médica estabelece que, numa paciente com as condições e o tratamento de Dilma, a possibilidade de a doença voltar é de apenas 10%. Isso significa que, ainda que reduzida, existe a possibilidade de que ela não possa vir a disputar a eleição por motivos de saúde. Nesse caso, qual seria a alternativa que Lula teria em mente? O ministro Franklin Martins ouviu a pergunta e respondeu de bate-pronto: "O presidente pode ter um plano B, mas não pode comentá-lo com absolutamente ninguém. Porque, em política, o aparecimento de um plano B inviabiliza imediatamente o plano A. Por isso a candidata é Dilma."
