07/09/2007

À Pátria amada

Salve, salve. Como está? Melhorou?

As notícias que recebo de seus filhos não são boas, mas sei que você é forte e há de vencer mais essa. Tantas crises e traições seguidas devem estar abalando você, mas saiba que é amada, idolatrada e jamais será abandonada.

Pátria minha, posso ser sincera com você?

Você é rica, gentil e generosa, mas dá muita bandeira, por isso abusam da sua boa vontade. Aproveitadores prometem servi-la e roubam de seus cofres. Covardes juram protegê-la e atiram em sua gente pelas costas. Falam besteiras em seu nome, debocham de seus defeitos, sonegam o que lhe devem.

Por outro lado, você nunca esteve tão livre. Tão respeitada pelas colegas. Sua beleza e sua simpatia sempre foram reconhecidas, mas agora elogiam também sua inteligência e seu bom gosto. Copiam o que você veste, querem saber a fonte da sua energia, até depilam-se à sua maneira.

Portanto, querida, talvez seu problema seja mesmo de auto-estima. Você é virginiana, de 7 de setembro, certo? Então está sempre desconfiada e insegura. Não consegue tomar decisões e, muitas vezes, foge às responsabilidades.

Assuma, Pátria, que você é legal, mas vacila. Aprenda a punir quem abusa de seus favores e a tratar bem quem procura seus serviços. Afaste-se dos puxa-sacos e abrace seus desvalidos. Seus verdadeiros amigos não estão nos banquetes em sua honra, mas nos bobocas que calçam chuteira com você. A hipocrisia, maldita praga que seu ardor atrai, é a raiz dos seus problemas.

Mas, calma, tudo tem jeito, você já resistiu bravamente a dias piores. Quando nem se sabia quanto roubavam de você. Quando sujavam seu nome em porões de tortura. Quando seu dinheiro valia tão pouco que era motivo de piada.

E hoje, Pátria, você não carece de grandes atos de heroísmo, mas de pequenos gestos de respeito. Não precisa de novos salvadores, mas dos velhos sobreviventes. Inspire-nos a ver que não somos coitadinhos, somos até sortudos. Vemos tornados, terremotos e bombas terroristas pela televisão. Moramos de frente para a praia, com o mais verde quintal do mundo. Se temos a corrupção como mal encruado, que seja essa a nossa luta. A grande batalha que venceremos em seu nome.

Freud disse: "Primeiro, olhe bem as profundezas da sua alma e aprenda a saber quem você é; depois, entenda o que há de errado com você". Cazuza fez uma música dizendo a mesma coisa, lembra?

Por mim, você abandonava de vez esse positivismo cafona, que um dia lhe impuseram como lema. Não é pela ordem que seus filhos se destacam pelo mundo, é pela bagunça e festa. O progresso? Vem naturalmente quando se vive em paz, num ambiente fértil. Se é necessário um mote para completar a lacuna, que o escolham de onde sua alma se manifesta: nos pára-choques de caminhão.

Já imaginou? Você de verde e amarelo e, na faixa, em sua testa estrelada, escrito assim: "Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho". Ou simplesmente: "Existo porque insisto". É atrás da pompa dos palanques que se escondem seus inimigos.

Com amor,

Fernanda Young

Fernanda Young é escritora, roteirista e apresentadora de TV

27/08/2007

Geração

Começando a semana com um pensamento interessante, para refletir muito.

"Pertenecen a la misma generación los seres humanos que han peleado en la misma trinchera de la misma guerra. Somos los sobrevivientes de aquella guerra. ¿Qué puede haber una diferencia de edad de quince años? Pues sí; pero lo importante para su vida es que estuvieron en la misma trinchera durante una época clave su vida, compartieron la misma experiencia vital. Eso define a una generación."(Felipe González)

24/08/2007

É preciso fazer a ficha cair.

Com o tempo a gente vai aprendendo.
Eu sempre fui uma pessoa que acredita e confia nos seres humanos até que eles dêem algum motivo para que eu pare de acreditar. Aquela velha e boa postura de acreditar em alguém, até que essa pessoa dê um motivo para que se deixe de acreditar e confiar nela.
Confesso que nessa vida já "errei muito na mão", com relação a isso. Explico: muitas vezes, mesmo as pessoas me dando os motivos para eu deixar de confiar e de acreditar nelas, mesmo assim eu continuava dando a cara a tapa, dando outras e outras chances para que me mostrassem que o ser humano é bom, em sua essência, e que mesmo as maudadezinhas podem ser atenuadas na personalidade de cada um, com o tempo. Todo mundo tem direito de agir mal: não conseguimos ser perfeitos o tempo todo, sobretudo em situações de stress etc. Sou consciente de minhas próprias falhas e por isso tenho bastante tolerância em lidar com as falhas alheias.
O problema é quando se é muito compreensiva e alguns desavisados acabam confundindo a sua bondade e a sua compreensão com vocação pra ser palhaça. Muitas vezes passamos por cima de chateações simplesmente para manter laços que são mais importantes e é triste quando se percebe que a outra pessoa, ao te ver fazer vista grossa sobre algo, subestima sua inteligência e acha que você é "tonta" e não que você é "tolerante".
Com o tempo fui aprendendo que - para o bem e para o mal - tenho uma certa facilidade para conhecer bem as pessoas, para compreendê-las, para amá-las do jeito que elas são: cheias de defeitos e de valorosas virtudes. Sempre procurei fazer o lado das virtudes pesar mais na balança e nunca me arrependi disso.
Mas é preciso fazer a ficha cair...
E estou contente comigo mesma. Amadureci muito nos últimos anos e aprendi - mesmo que a duras penas, em alguns casos - a ir separando lentamente o joio do trigo. Tenho feito um trabalho diário e hercúleo de preservar-me das safadezas da vida, sem prejudicar uma característica que tenho em mim e que acho maravilhosa: a minha capacidade de doação a tudo que faço e a todos que quero bem.
É assim que hoje posso dizer que tenho amigos maravilhosos que me valem ouro. Mas também aprendi a ter "colegas" simplesmente. E "conhecidos" simplesmente. E gostei muito da sensação. Porque percebi que dessa forma me sobra muito mais energia para ser investida em quem realmente merece!
E deixa quem quiser que pense que eu sou tontinha... De repente a mais esperta de todos sou eu - observando e constatando...
Espetáculo!

19/08/2007

Meus pais







Pela primeira vez na vida consegui convencer meus pais a saírem comigo para fazer um programa que eu tinha certeza que eles iriam adorar: levei-os à Final do Festival Viola de Todos os Cantos (EPTV/PMSC) ontem, no Ginásio Milton Olaio.
Parece bobeira, mas só eu sei o quanto isso foi importante pra mim.
Tem várias coisas que eu faço e que eu vejo e que eu gostaria muito de dividir com meus pais. Ontem eu consegui isso. Fiquei emocionada em ver minha mãe feliz por ver ídolos dela. Um show - coisa que pra mim é tão banal! - para eles é muito raro, porque não têm o hábito de freqüentar e mesmo de sair de casa pra fazer esse tipo de programa.
Muito importante pra mim. Me senti feliz em proporcionar isso a eles. Deve ser parecido com o que meu pai sentiu quando levou o pai dele para pescar no Pantanal.
E o melhor de tudo é que o Wanderley estava lá comigo, nesse momento tão especial pra mim (além do Xandinho e da Má, que também foram nossos companheiros de platéia).
Talvez eu não consiga expressar essa minha felicidade - porque não consigo pôr isso pra fora em palavras, só em choro! - mas eu bem sei o quanto isso me fez bem.

18/08/2007

Leveza

Uma música dessas que fazem a gente se sentir "leve" e "pra cima"

TUDO NOVO DE NOVO
Letra e Música: Moska

Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

16/08/2007

Cansei!

ótimo

Ótimo texto.
Vale a leitura de cada palavra.


A TV que não ensina a morrer
Marilene Felinto

Por que que a droga da TV - do jornal e da revista - não aproveitou a desgraça com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, a bola de fogo, o arrebatamento dos instantes, a fatalidade, a impotência humana sobre o tempo e o mistério, para tratar da efemeridade da vida?

Por que a droga da TV - do jornal e da revista - não aproveitou para lembrar ao espectador que amanhã... morre-se. Simples: amanhã, morre-se. Amanhã: é fogo-fátuo. A hora era de filosofia, de meditação, não de politicagem oportunista, não de espetacularização da dor alheia, não de exploração de emoções baratas.

Não teria sido melhor, menos desonesto e sórdido do que ficar tentando achar pêlo em casca de ovo para tentar derrubar (pela enésima vez) o governo Lula? Ora, o governo Lula é o melhor governo que o Brasil já teve, desde que eu me entendo por gente neste quase meio século da minha existência estúpida. Só os ricos não acham isso - a classe dominante, que segue mantendo sua "relação incestuosa" (Fábio Lucas) com a mídia rasteira.

Por que a merda da TV não eleva o nível, não ajuda o povo a filosofar, a se entender a si mesmo e ao enigma do tempo, da origem e da morte? No caso do desastre do avião, bastava terem usado o formato "quiz show" (programa de testes). Eles não adoram show, espetáculo? Adivinhação: O que foi que se perguntaram, no último segundo, as pessoas naquele avião (se é que se perguntaram algo), senão: "Que é isto que eu sei sem que ninguém me tenha perguntado, mas que, se eu quiser explicar a quem me perguntar, eu não sei? A resposta é: o Tempo." (Santo Agostinho, citado por Husserl - Edmund Husserl. Lições para uma fenomenologia da consciência íntima do tempo).

É preciso, com urgência, matar, isso sim, esta imprensa, esta mídia da indústria cultural - esta que se manifesta mesmo é na manipulação dos conteúdos, que procede à mais devastadora despolitização da sociedade; esta que, no lugar de promover a formação e a participação política, opta pela imposição do consumo de espetáculos pré-fabricados (Fábio Lucas). O que virou a tragédia do avião da TAM senão um showzinho para o "Fantástico" da Globo? É preciso acabar com a Globo, com o jornal "O Globo", com a "Folha de S. Paulo", o "Estado de S. Paulo", a Rede Bandeirantes e outros lixos como eles se apresentam hoje.

Bastava a TV ter lembrado ao telespectador que é preciso lembrar-se de que o amanhã não existe! Outro dia mesmo morreu mais um aparentado meu em Pernambuco, Recife, aonde minha infância vai assim escorrendo feito areia fina por entre os dedos - e eu, aos choros, não consigo retê-la, detê-la, senão num punhado ralo, grãos que brilham e rebrilham na insistência da memória, apenas. Mas o resto (o material mesmo, os corpos, as caras, os cheiros das gentes da minha infância) escorre e vira pó - os velhos que vão morrendo, os parentes, os aparentados, os conhecidos. Eu mesma que sigo morrendo.

Outro dia entrei num sebo aqui em São Paulo, cujo dono me conhece. Ele (um rapaz de uns vinte e cinco anos) veio surgindo do fundo da loja, emergindo de entre pilhas e mais pilhas de livros velhos amarelados, enrugados, organizados meio sem ordem, e foi dizendo: "olha, hoje entrou um livro seu! (e citou o nome). Aliás, ontem entrou outro em que o prefácio é seu! E tem outro aqui (retirando o exemplar da prateleira e me mostrando) em que a revisão é sua!" Abri uma gargalhada diante do jovem de cara boa, bonita, risonha, metade da minha idade: "quer dizer que já virei mesmo objeto de museu, não é não?!". Ele respondeu que aquilo, na verdade, era sinal de consagração. "Consagração, não. Esquecimento", corrigi. "Tudo o que eu quero - esquecimento", acrescentei.

A mim, afinal, não me interessa mais a publicação de livros. Hoje eu só escrevo para mim mesma - e não há maior sensação de liberdade do que esta. Esta sensação de estar fora do sistema, de não ser refém nem do "mercado" nem da mídia podre. E eu só escrevo para ter contato com o outro tempo, o que a TV não mostra. Há outro tempo que a TV não mostra (é preciso, com urgência, matar a TV, a imprensa escrita etc.). Meu tempo não corresponde à marcação das horas, minutos e segundos, no relógio, disposto em dias, semanas, meses, anos, estações, ciclos lunares etc. Meu tempo é interior: ele desobedece ao relógio, flui dentro das personagens, como um eterno presente, um tempo-duração (Bergson), sem começo, nem meio, nem fim. (Massaud Moisés):
"Dir-se-ia que o fim último, consciente ou não, de qualquer narrador consiste em criar o tempo. (...) Criando o tempo, o homem nutre a sensação de superar a brevidade da existência, e de identificar-se, demiurgicamente, com o tempo cósmico, que permanece para sempre, indiferente à finitude da vida humana; gerando o tempo, o ficcionista alimenta a ilusão de imobilizá-lo ou de transcendê-lo."

Marilene Felinto é escritora
(marilenefelinto@carosamigos.com.br)

Paixão, mulheres e amigas


Não vou dizer que seja uma grande fã da Danusa Leão - muito pelo contrário. Mas confesso que há alguns textos dela que são bem legaizinhos. Ontem deparei-me com esse (abaixo) e decidi colocá-lo aqui no blog, porque SIM, sou uma dessas mulheres que são capazes de tudo quando estão apaixonadas.
Boa leitura!



Paixão, mulheres e amigas
Danusa Leão

O que as mulheres são capazes de fazer por uma paixão? Praticamente tudo. As apaixonadas vivem em outra dimensão e só se entendem com outras apaixonadas. Alguém, em seu estado normal, pode conceber que, na era pré-celular, havia quem passasse o dia inteiro em casa porque ele poderia telefonar? E, como nas casas só existia um telefone, ninguém podia falar, para não ocupar a linha. Converse com algumas mulheres dessa época e elas terão muitas histórias para contar, todas ab-so-lu-ta-men-te idênticas. Porque elas (nós), quando se apaixonam, são todas iguais. Experimente perguntar a sua amiga como foi que eles se conheceram, como tudo começou. E pode pegar um livro, disfarçadamente, pois ela vai falar durante horas sem que você precise dizer uma só palavra. As apaixonadas mentem para o chefe com a cara mais inocente e adoecem a tia ou a mãe sem nenhuma culpa, arriscando o emprego e talvez o futuro, para ficar com ele mais algumas horas na manhã de segunda-feira.
A criatividade de uma mulher apaixonada não tem limites. Se ele não é totalmente livre, digamos assim, ela vai descobrir o nome da outra, a profissão, o número do telefone do trabalho, o nome e a idade dos filhos em mi-nu-tos. Para uma mulher apaixonada, é fundamental ter uma amiga com poucos escrúpulos, muito tempo vago, hábil e com talento para fazer todos os papéis, se for preciso - e sempre é. Porque ela é quem vai ligar à noite para saber se ele está em casa, vai se plantar dentro do carro até de madrugada para ver se ele entrará sozinho no apartamento ou com alguma vadia. Essa amiga topa dar uma festa só para você poder usar seu vestido mais sexy - e convidá-lo, claro. Quem tem uma amiga assim tem tudo na vida e, se tiver um amigo - pois às vezes é necessário uma voz de homem -, aí é o paraíso. São raros esses amigos tão preciosos, mas eles existem. Uma mulher apaixonada não hesita em cometer os maiores desvarios. Se o telefone dele estiver ocupado durante muito tempo, ela é capaz de ligar para aquela mulher de quem desconfia - e sabe o número de cor -, e, se o dela também estiver ocupado, é elementar: eles estão falando entre si.
Ah, as mulheres apaixonadas: por mais sérias que sejam, por mais responsáveis diante do mundo, viram doidivanas quando um homem consegue atingir seu coração. Elas são maravilhosas, todas tão diferentes e tão iguais; e não existe nada melhor do que ouvi-las falando de seus amores. Entre o papo de duas adolescentes ou de duas mulheres várias vezes casadas e com filhos de diversos maridos, não há diferença. Afinal, não há maior estado de graça do que estar apaixonada. Se você tem uma ou duas amigas assim, aproveite para aprender o verdadeiro sentido da vida. E faça isso antes que alguém chame a ambulância do manicômio e o enfermeiro leve-as em camisa-de-força. A única chance que elas têm de escapar é se a psiquiatra for mulher e também estiver apaixonada; nesse caso, o papo vai se estender até o dia clarear. A três, é claro. O que seria do mundo sem as mulheres?

Danuza Leão é cronista, autora de vários livros, entre os quais Na Sala com Danuza 2 (ARX) e Quase Tudo (Cia. das Letras)
Esse texto foi retirado da Revista Claudia - edição Agosto de 2007