01/04/2016

A CRISE POLÍTICA ATUAL: UMA GRANDE FARSA


Dermeval Saviani
Professor Emérito da UNICAMP e Pesquisador Emérito do CNPq.  Educador

A crise que se abateu sobre o país tem sido justificada em nome do combate à corrupção e, por meio da insistente repetição dos diversos meios de comunicação, vem induzindo a população a acreditar que foi o PT que, ao chegar ao governo, institucionalizou a corrupção instalando uma verdadeira quadrilha empenhada na apropriação privada dos fundos públicos. Mas a verdade é bem outra. O erro do PT foi, ao assumir o governo, não ter tentado desmontar o esquema que já existia e do qual se serviam todos os partidos que chegavam ao poder. Ao contrário, para assegurar uma base de apoio no Congresso sem o que não conseguiria governar, o PT lançou mão do esquema que já se encontrava em funcionamento muito antes do seu surgimento. Portanto, o apelo atual à luta contra a corrupção não passa de uma grande farsa. Como afirmou o delegado da Polícia Federal Armando Coelho Neto, que se aposentou faz apenas dois anos e foi presidente da Associação dos Delegados da Polícia Federal, a PF na era FHC estava desaparelhada e carecia de autonomia tendo havido, inclusive, um empréstimo francês para seu aparelhamento que, embora recebido e o governo já estivesse pagando juros, não foi utilizado por falta de planejamento. Em contrapartida, a gestão Dilma tomou treze medidas que aparelharam a Polícia Federal e lhe deram autonomia, assegurando-lhe condições de atuar fortemente na investigação dos atos ilícitos, em especial no caso da corrupção. Mas ele constata que, na verdade, não se está lutando contra a corrupção. Se isso estivesse ocorrendo outras operações estariam em curso. A Operação Zelotes, por exemplo, está abafada porque nela estão envolvidos grandes personagens da política, grandes empresas e bancos, grupos de comunicação, à testa a Rede Globo, num grande escândalo intermediado pelo Banco HSBC que, por conta disso, acabou se retirando do país. Na própria Operação Lava-Jato as delações trouxeram à baila nomes do PSDB e de outros partidos que, no entanto, são blindados. A Conclusão do ex-presidente da Associação dos Delegados da Polícia Federal é que o que está em curso não é uma luta contra a corrupção, mas uma guerra contra o governo e o PT. Bresser-Pereira, por sua vez, que foi um dos mais importantes ministros do governo FHC, tem evidenciado o ódio dos endinheirados contra o PT e, num dos últimos vídeos ele afirma que nos governos de Lula e Dilma os pobres ficaram menos pobres e os ricos mais ricos, sendo que a classe média foi a menos beneficiada. Daí, o cultivo do ódio da classe média contra o PT, ódio incentivado com a insistência da mídia que diariamente, repetindo à exaustão, se dedica a esmiuçar denúncias não comprovadas contra Dilma, Lula e o PT. E isso é muito perigoso porque está em curso uma onda fascista que se manifestou explicitamente com saudações nazifascistas e incitação ao armamento da população, como o fez o deputado Jair Bolsonaro. Este, segundo consta, teria sido avisado previamente da condução coercitiva do Lula que, segundo o plano seria levado preso de Congonhas para Curitiba num jatinho que já estava pronto para decolar, quando a operação foi abortada pelo destacamento da aeronáutica que faz a segurança do aeroporto de Congonhas. Mas Bolsonaro já teria se dirigido a Curitiba para lá incitar a população a se manifestar em apoio à prisão de Lula assim que ele chegasse à carceragem. É um quadro muito preocupante que nos faz lembrar da Alemanha das décadas de 1920 e 1930 com a ascensão de Hitler, apoiado pelo fanatismo que se apossou da população. Naquela situação também a Justiça se revelou draconiana com as ações da esquerda e complacente com a truculência da direita. Agora, no Brasil, está em curso iniciativas que, como observou o jurista Fábio Conder Comparato, deixa o Estado de Direito em frangalhos, com violações de normas constitucionais.
A situação é muito grave e, ao que parece, o golpe irá se consumar porque todas as instituições da República (Judiciário, Ministério Público, a própria OAB, Parlamento, Partidos políticos, toda a grande mídia televisiva, escrita e falada) encontram-se conspurcadas e obcecadas com o único objetivo de destruir o PT e impedir Lula de voltar a se candidatar. E, para isso, não têm pejo em violar as normas jurídicas relativas aos direitos mais elementares, inclusive dispositivos constitucionais. A hipocrisia é tanta que jornalistas, representantes do Judiciário e parlamentares repetem à exaustão que Lula não pode ser ministro porque é investigado, ao mesmo tempo em que se posicionam a favor do impeachment que vem sendo conduzido e manipulado por um parlamentar que não apenas é investigado, mas é réu e se mantém como Presidente da Câmara dos Deputados sendo, nessa condição, o segundo na sucessão da Presidência da República. Então, a pergunta que não quer calar é: por que Eduardo Cunha, que é réu em processo que corre no Supremo Tribunal Federal, pode continuar como deputado e, mesmo, como Presidente da Câmara obstruindo a Comissão de Ética e articulando todos os passos do processo de impeachment; e  Lula, que apenas está sendo investigado, não pode assumir a Casa Civil?  Diga-se de passagem que esse impedimento é também violação da Constituição a qual determina que a nomeação de ministros no âmbito do Poder Executivo é prerrogativa exclusiva da Presidência da República.
Sim, o que está em curso é um golpe. Claro que o impeachment está previsto na Constituição não podendo, pois, por si mesmo, ser caracterizado como golpe. Mas quando esse mecanismo é acionado como pretexto para derrubar um governo democraticamente eleito sem que seja preenchida a condição que a Constituição prescreve para que se acione esse mecanismo, ou seja, a ocorrência de crime de responsabilidade, então não cabe tergiversar. O nome apropriado nesse caso não é outro. É, mesmo, Golpe de Estado, pois a Constituição não estará sendo respeitada, mas violada. E até agora, nenhuma das alegações apresentadas para justificar o impeachment caracteriza crime de responsabilidade. Aliás, Dilma sequer está sendo investigada ao passo que a Comissão do impeachment tem mais da metade de seus membros em investigação e, no conjunto da Câmara, 302 deputados encontram-se na mesma situação. A farsa está, pois, escancarada: um bando de corruptos julgando e condenando uma presidenta que não cometeu crime algum. E, como a oposição ensandecida deverá, engrossada pelo PMDB, conseguir maioria para aprovar o golpe, restará ao Supremo, cumprindo seu papel de guardião da Constituição, evitar esse desfecho. Se isso não acontecer, a farsa se transformará em tragédia. E o Estado Democrático de Direito deixará de existir no Brasil, vitimado por um Golpe de Estado jurídico-midiático-parlamentar. É, pois, de suma importância uma grande mobilização das forças democráticas, independentemente de partidos e da avaliação positiva ou negativa do governo Dilma, para evitar essa tragédia.

Campinas, 31 de março de 2016.

14/01/2016

O Nersão sempre teve razão

Ontem fui ao cine com o André - depois de um loooongo tempo que espero nunca mais demore tanto - e, chegando ao estacionamento, visto que continuava caindo a mesma chuva torrencial iniciada 30 horas antes, abri meu guarda-chuva chiquérrimo do Romero Britto e saí linda do meu carro, desfilando charme e doçura rumo à sala de cinema. Sim, eu estava mesmo particularmente doce na noite de ontem.
Eis que, no meio da caminhada, percebo por todos os lados jovens fazendo o mesmo trajeto que o meu, TODOS eles, homens e mulheres, TODOS tomando chuva na cabeça e andando apressadinhos pra tentarem se molhar menos. Tudo pra não carregar consigo um guarda chuva. 
Seria guarda chuva uma coisa de velho? Com certeza!! - segundo a opinião deles - visto que preferem andar 100m embaixo de chuva só pra não carregarem o utensílio.
Mas a minha preocupação não é nada do tipo "putz, usei guarda chuva, então sou velha". A minha preocupação, meus caros, simplesmente é "putz, eu quando era jovem, era idiota assim?". 
Sim, caríssimos: o que me dói é saber que a resposta a essa pergunta é uma afirmação. Não quanto a guarda-chuvas - pois eu sempre os usei sem pudores - mas tenho absoluta convicção de que fui muito idiota em muitas circunstâncias de minha vida, sob os mais variados aspectos.
E eis que tenho maturidade, finalmente, para concordar com o infalível Nelson Rodrigues, quando ele dizia e insistia: "O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho."
Simples assim.

31/12/2015

Sem golpes!!


Deixe a fila andar

O bom dos fins de ano é que temos a chance de fazer "um balanço" da nossa vida e avaliar o que vale a pena ser mantido no nosso coração e o que deve simplesmente ser "deixado pra lá". O bom de ter um blog - ou diário ou algo que o valha  - por vários anos é ter a chance de reler reflexões que fizemos nos fins dos anos anteriores e ver, já com a lente melhorada da distância, onde acertamos e onde erramos. É possível corrigir rotas, se necessário: para isso basta ter humildade. 
Creio que tomei algumas decisões de deixar pra lá pessoas e situações na minha vida, que me foram muito difíceis. Ninguém gosta de ser "chata", de dizer que não gosta de certos acontecimentos e de conscientemente retirá-los de sua vida: sim, é muito mais fácil ser "legal", sorrir, resignar-se e engolir sapos simplesmente para não se indispor com os outros. Mas, a longo prazo, quem ganha com isso?
Temos que investir no nosso bem estar e na nossa paz de espírito. É preciso oxigenar nossa vida e nossas relações. Extirpar o que não presta, como retirar uma verruga da pele: vai doer na hora, mas a longo prazo será benéfico. 
Sim, me sinto mal em dispensar uma faxineira, em eliminá-la da minha vida e chamar outra em seu lugar. Afinal, o dinheiro que eu pago fará falta pra ela. Além disso ela é honesta, de confiança, gente boa. Coitada. Será que não estou sendo muito rígida e intransigente? 
Mas ao mesmo tempo penso que não é justo comigo ficar tensa todo dia de faxina porque sei que ao chegar em casa terei que ficar colocando os objetos nos lugares certos, terei que, na marra, exercitar o desapego ao ver que a pessoa estragou coisas minhas por puro desleixo, que jogou fora coisas que não eram pra ter sido jogadas.
Terei que respirar fundo pra não me estressar ao ver que a fulana não limpou aquela teia de aranha, aquele rejunte de azulejo, que não fechou os frascos de produtos de limpeza e eles estão lá evaporando, como o meu dinheiro. Não é tão óbvio esse tipo de coisa pra que não se precise repetir, repetir, repetir?? Não, não é justo gastar dinheiro com gente desleixada e ter que ficar descontente, só pra não se constranger ao dispensar a pessoa. 
Dei esse exemplo apenas pra ilustrar, mas assim é com tudo em nossa vida. Com comportamento danoso de colegas no trabalho que "aceitamos" só pra não criarmos um "clima ruim" (é muito mais fácil ser "legal" e concordar com tudo do que falar umas verdades e ficar sendo "a chata"). Com aquele "amigo" que já te fez tão bem, mas que hoje em dia fala coisas com as quais você simplesmente não concorda, te desrespeita e te faz sentir mal, mas você o continua mantendo por perto, simplesmente pra não ter que ser "chata" e dizer umas verdades a ele, se afastar pra ter um pouco de paz e não se agredir. 
Pois minha reflexão de fim desse ano e propósito para o ano novo é que olhemos mais pra nós, para o que nos faz bem, e que invistamos nosso tempo e energia em pessoas e coisas que realmente nos façam bem. Vamos parar de perder tempo com gente e com coisa que não vale a pena. Vamos parar de ocupar espaço no nosso armário com peças que não nos servem mais ou que simplesmente já não fazem mais nosso estilo. Vamos fazer uma limpeza no armário e na vida. 
Sem rancor e sem ódios: vamos respeitar o que teve significado em nossa vida sem desdenhar de nada. Simplesmente vamos deixar a fila andar. 
No armário e na vida. 
Essa é minha proposta pra 2016. 

30/12/2015

Adeus

Tudo que vivemos juntos nunca irá se apagar. Só por hoje chorei e chorarei pela sua partida. Só por hoje. Porque a partir de amanhã só ficarão as lembranças boas de tudo de bom e de não tão bom que compartilhamos em nossa caminhada juntos: as dores, as desilusões, nosso crescimento e nossas descobertas juntos, nossas confidências, nossas aventuras e desventuras, nossas muitas e muitas alegrias. Obrigada por ter sido meu irmão, por ter me amado e por ter me deixado te amar. Desentendimentos? Sim, nós os tivemos. Como acontece entre irmãos e entre amigos-irmãos. Nossas almas se encontraram, se aproximaram e se completaram. Isso é raro e não tem preço. Sua luz estará sempre em mim. Que Deus o tenha.

16/12/2015

os idiotas da superficialidade

Hoje numa fila de comércio vi uma moça comentando com uma amiga, em tom jocoso, que recebeu um cartão de Natal de um amigo por correio. Dizia ela que é uma coisa ultrapassada, fora de moda etc. Riram muito e fizeram comentários maldosos sobre o pobre remetente. Fiquei pensando que estamos vivendo tempos muito tristes, mesmo. Tempos em que um AMIGO manda a outro AMIGO um cartão com votos de Boas Festas, com desejos de um Feliz Ano Novo, e é alvo de chacota por isso. Certa vez li uma frase que dizia que a gente não deve deixar a maldade dos outros guiar as nossas atitudes. E acho que é isso mesmo que devemos fazer: continuemos mandando nossos cartões de Natal com nossos melhores votos aos que julgamos serem nossos amigos. Os nossos cartões serão rasgados, alguém rirá deles, mas o nosso sentimento terá sido verdadeiro. Isso é o que importa. Danem-se os superficiais que estão perdendo a capacidade de amar e de respeitar. O problema é deles.