15/08/2007

A doçura que faz falta no relacionamento

De repente, começamos a falar mais duro, a economizar sorrisos e a fazer exigências. Tudo sem nos darmos conta de que, assim, o amor desanda. Num artigo exclusivo para CLAUDIA, a escritora Paula Taitelbaum convida as mulheres a mudar o jogo e resgatar a ternura perdida

por Paula Taitelbaum

Vejo um casal de velhinhos sentado em um restaurante, cabecinhas brancas, mãozinhas dadas. A cena é encantadora, mas demoro alguns segundos para descobrir o porquê. Então percebo que eles possuem algo precioso: uma doçura no olhar. Sigo meu caminho, eles ficam pra trás, e a imagem permanece comigo. Ser doce no início do relacionamento é fácil, mas segurar a onda durante décadas de convivência parece realmente admirável. Ainda mais hoje em dia... Tenho uma certa tendência em culpar o estilo de vida moderna pela amargura nos relacionamentos que me cercam. Talvez seja injustiça. A vida anda dura, mas cabe a nós decidir com que astral vamos enfrentá-la e dar adeus à amargura que vai se instalando na mesa de jantar, no sofá da sala e sob nossos lençóis.
Eu, você, sua melhor amiga, sua prima, todas nós - e os homens também - temos um quê de abelha. Sabemos fabricar mel e, ao mesmo tempo, conservamos nossos ferrões escondidos. Faz parte da natureza, diria. Só que, às vezes, até por instinto de sobrevivência, alguns exageram nas ferroadas e esquecem de produzir o doce que alimenta os relacionamentos. Há doçura na vontade de ir correndo pra casa depois do trabalho só pra dar um beijo naquele que nos espera. Ou no interesse em perguntar como foi o dia dele e querer mesmo saber a resposta. Lembra daquelas palavrinhas mágicas que tanto tentamos ensinar aos nossos filhos? Pois eu acredito que há doçura quando sabemos dizer "com licença", "por favor" e "me desculpe". Sem exageros, é claro, pois tudo o que é melado enjoa. O excesso de cuidados e atenções sufoca, abafa, afasta, engasga. É aquela velha história de ficar repetindo "eu te amo" sem parar. Lá pelas tantas, banaliza e perde a graça. Sem contar que ninguém é tão carente a ponto de precisar escutar isso a cada dois segundos. Precisamos, sim, de quem nos compreenda, nos surpreenda, nos estimule em todos os sentidos. E precisamos devolver na mesma moeda. Doçura é uma via de mão dupla. A gente dá e a gente quer receber. Se não for assim, bem, aí as abelhas podem picar.
Algumas situações falam por si, não mentem. Por exemplo, a televisão sempre ligada, interagindo mais do que o casal. Ou um dormindo sozinho no quarto, enquanto o outro não sai da frente do computador. Quando imagens como essas se tornam corriqueiras, a relação já mergulhou na acidez. A gente percebe os sinais. Sentimos que falta tempo, vontade e dedicação, mas, muitas vezes, não chegamos a acreditar que o relacionamento esteja correndo perigo. Ficamos acostumadas com a falta de doçura, e a frieza instala-se no ambiente como se fosse um móvel de canto. Se você assistiu ao filme Beleza Americana, lembra da personagem interpretada por Annette Bening, um caso típico de como a amargura pode chegar ao casamento. A atriz vive uma mulher de relativo sucesso profissional que critica o marido em tudo, que o vê como um fracassado, que renega um carinho porque a cerveja pode cair no sofá. É a caricatura de muitas relações em que o ter está acima do ser, a famosa crise de valores que faz com que muitos casamentos mais pareçam uma sociedade com fins lucrativos. A parceria, o amor e o carinho, tudo isso fica nas cláusulas miúdas do contrato. E a doçura... Bem, essa coitada já nem faz parte da história.
A luta por conquistas materiais influencia, e muito, nosso nível de doçura. Há poucas gerações, as pessoas decidiam ficar juntas com expectativas diferentes das nossas. Vejo meus pais, por exemplo. O que eles mais queriam no início da vida de casados era uma casa própria e um automóvel econômico. O resto, se viesse, era lucro. Não que eu quisesse trocar de lugar com a minha mãe ou a minha vó. Não consigo me imaginar casando virgem ou sem ter um trabalho que eu ame. A questão é que, naquela época, havia mais paciência para se constituir um patrimônio. Hoje, nossa meta é muito mais do que um teto. Almejamos um apartamento de cobertura com vista para o mar. Não basta ter um carro que ande - precisamos daquele modelo com design arrojado, air bag duplo e motor 2.0. E tem ainda o aparelho celular último tipo, o computador que praticamente pensa sozinho, o DVD ultracompleto, a roupa de grife e a viagem à Europa nas férias de verão. Tudo para ontem, pois a vida é breve e ninguém tem tempo a perder. Sinto muito dizer, quem não herdar uma megafortuna terá que trabalhar pelo menos 20 horas por dia para conquistar tudo isso. Então, como arranjar tempo para preparar um jantar à luz de velas ou curtir um banho a dois bem demorado? Se você encontrou alguma semelhança entre essa história e a sua, é hora de repensar os valores. Existe muita coisa maravilhosa que não dá para comprar. E a doçura é uma delas.
Tenho um casal de amigos que está junto há mais de 20 anos. Ele é um advogado de prestígio; e ela, sócia de uma empresa de design. No início do casamento, no entanto, faltava tudo em casa, até dinheiro para pagar a luz. Vergonha, irritação, revolta com isso? Que nada. Eles lembram essa época com ternura. Aproveitavam o escuro para se divertir, criando um clima romântico com velas. Claro que a situação não durou muito, mas o legal é que eles faziam questão de encarar o problema com bom humor. Minha amiga conta que foi um período maravilhoso. Há pouco tempo, declarou que o marido era tão ou mais importante do que os filhos. Eu fiquei meio chocada, questionei a afirmação, e ela deu uma resposta muito clara: filhos crescem e vão embora de casa, o marido vai envelhecer com ela, é aquele que escolheu como companheiro. A lição que tirei dessa conversa toda foi a de que, quando sentimos que encontramos alguém especial, único e insubstituível, precisamos investir na doçura. Uma pessoa assim merece nossa admiração, respeito, carinho e atenção. É difícil determinar a dose certa de doçura. Alguns gostam de uma pitada de açúcar, outros de uma colher de sopa. Depende da personalidade e das expectativas de cada um. Pessoas meigas e tranqüilas são naturalmente mais doces, muito mais dadas a rompantes de romantismos. Já as de temperamento duro nem por isso são avessas à ternura. Apenas encaram tudo de uma forma mais racional. Mas nada impede que um tipo se relacione muito bem com o outro. O importante é estabelecer uma cumplicidade, cada um com o seu mundo, mas ambos pelo bem da relação.
Um dia desses, participei de um encontro cultural com o tema maturidade feminina. Os relacionamentos e suas nuances foram o foco principal do bate-papo e, a certa hora, levantou-se a questão da tendência que temos em confundir os termos individualidade e individualismo. Enquanto o primeiro significa preservar as características pessoais, garantindo liberdade de movimento e pensamento, o segundo é a lei do eu em primeiro lugar. Uma senhora, casada há 40 anos, foi muito enfática ao dizer que, para a relação dar certo e a amargura não imperar, é vital que sejamos nós mesmas. Mas sem fazer tudo à nossa maneira. É isso. Doçura é como maturidade, exige flexibilidade e tolerância, equilíbrio entre o querer e o poder, entre o dar e o ceder. E, principalmente, necessita de muitos cuidados de manutenção. Todo cuidado é pouco, até com o que se diz sem pensar. Ainda que a TPM esteja elevada à potência máxima, que o vestido novo tenha manchado, que o chefe esteja com o diabo no corpo, mesmo assim, precisamos nos policiar para não despejar uma avalanche de raiva sobre o nosso companheiro. Geralmente ele não tem culpa de nada. Nem preciso dizer que palavras ferem fundo, mesmo sendo proferidas em um momento de destempero. Por isso, fique atenta. Frases e palavras impensadas podem ser o pontapé que a relação estava esperando para começar a rolar ladeira abaixo. Não ofender o próximo é um dos mandamentos do relacionamento tranqüilo, saudável e... doce. Vale a pena se conter. Se não tiver jeito, se for mais forte do que a razão, o pedido de desculpas deve chegar a tempo de consertar a besteira. Mas, se a poeira baixar e você continuar achando que aquelas palavras maldosas realmente descrevem a pessoa que estará ao seu lado, nesse caso provavelmente sua relação está com os dias contados.
É importante lembrar que açúcar não faz milagre. Quando o relacionamento está naufragando, a tendência é buscar um bote salva-vidas e tentar achar o pote de mel perdido. Nesse momento, alguns embarcam numa canoa furada. Como acreditar que um filho poderá resgatar a doçura do passado. Idéia que, com o perdão do trocadilho, é uma doce ilusão. Ter um filho é bastante complicado mesmo quando as coisas estão ótimas entre um casal. Crianças são uma fofura, a coisa mais maravilhosa do mundo, mas não consertam o inconsertável. Já vi mulheres estressadas, workaholics sem tempo pra nada, que um belo dia decidem que precisam de um bebê para a harmonia chegar ao lar. A criança nasce e o que acontece? A relação descamba de vez. Raciocine comigo: se não sobra tempo para a vida a dois, imagine para a vida a três... Se a mulher fica irritada com a camisa que o marido usa, terá um surto quando ele vestir o filho com a roupa errada. Se a relação é doce, crianças a transformam em melado. Se é azeda, aí vira puro limão. Até a culpa que a mãe ocupadíssima sente acaba respingando na relação amorosa.
Você está confusa, já não tem certeza de que há doçura entre seus lençóis? Que tal fazer um teste? Comecemos pelo sexo. Não importa a freqüência. Cabe analisar se há intimidade, carinho e aquela vontade de permanecer abraçados durante alguns segundos. E quando vocês saem para jantar? Conversam, trocam olhares, seguram na mão um do outro? Ou sentam, pedem, comem e vão embora correndo? Pense também em como anda a intensidade dos abraços e a freqüência das risadas juntos. E, se parece complicado rir com tanto problema para resolver, analise o quanto vocês andam sendo solidários um com o outro, o quanto de compreensão há nos gestos e nas expressões trocadas.
Para sermos felizes, precisamos prestar atenção nos pequenos detalhes que tornam a vida mais doce. Fiquei sabendo que aquele casal de velhinhos que citei no início da matéria almoça todo dia no mesmo restaurante. Brindam, sorriem e são sempre gentis um com o outro. Decidi que quero ser como eles. Ter a cabeça deles. Na verdade, agora é que eu entendi. Os cabelos brancos são puro algodão-doce.

(Revista Claudia - julho de 2004)

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